Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe n'um transporte de colera:

—Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe allemão, emquanto eu não sei.

—Quero aprender a bordar de matiz, a Julia fez um quadro que eu não sei fazer.

Era assim que iam progredindo no estudo.

Marta conformava-se docilmente ás aspirações das discipulas: ensinava-lhes tudo o que sabia, mas o que ella de todo não pudera, era inocular-lhes a vida interior que animava e coordenava todos os seus conhecimentos adquiridos ou intuitivos.


Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se mesmo que não fôra para servir de mestra a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos os primores de uma educação excepcional.

Conhecia as linguas modernas, mas não como as conhecem as meninas que por ahi conversam com os diplomatas, resumindo n'isso todas as suas ambições de estudo.

Penetrára no espirito d'ellas, comprehendera o genio especial de cada uma, sabia de cór e escolhia principalmente os poetas que synthetisam uma nacionalidade ou uma civilisação.

Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a estudar a fundo todos os problemas em que outras mulheres tocam sómente ao de leve.