A curiosidade natural ao espirito feminino, essa qualidade preciosa, que, descurada, se torna quasi sempre em um vicio antipathico, fôra n'ella tão bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se tornára em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.

Não sabia can-cans de salão, sabia o que dizem na sua muda lingua os astros e as plantas; não tentara penetrar na vida intima das suas amigas, contentava-se em saber a vida intima da Creação.

Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito no pélago revolto das paixões insalubres; a sua curiosidade insaciada debruçava-se de melhor vontade no pélago profundo das ondas, a quem horas e horas perguntava pelas mysteriosas riquezas do seu seio.

No meio d'isto, despretenciosa e simples, julgando-se a mais ignorante das creaturinhas do bom Deus, não sabendo que era artista, que era intelligente, que tinha alma capaz de entender todas as grandes cousas.

O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da senhora a quem na infancia a confiára, disse-lhe um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era uma filha natural, mas que tencionava reconhecel-a, regularisar a sua posição, dar-lhe todos os direitos que ella por tantissimos lados merecia.

A adoravel creança não o percebeu.

Então—castigo terrivel das suas culpas—o pae teve de explicar, de fazer comprehender áquelles castos ouvidos de quinze annos uma historia deploravel, a historia do seu crime!

Martha escutou-o n'um silencio dolorido, com uma expressão de doçura triste no olhar.

Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros dias, porque até alli só tivera muito que agradecer e d'alli por diante sentia vagamente que tinha muito que perdoar.

—E minha mãe?—perguntou depois com uma tremura na voz.