Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo delgado, que faziam scismar Bertha,—não sei bem porquê—, nas lindas princezas dos contos de fadas, que vivem nos seus palacios á beira do mar, escondidas, discretas e cheias de magestosa gentileza.

As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado de côres vivas e tão varias, lembravam a Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n'um dia de parada, no desfilar apparatoso das tropas, musica brilhante, sonora, marcial, feita do estridor dos clarins, da fanfarra triumphante dos instrumentos de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam no espaço, como que n'uma explosão harmonica e sonora!

Gostava muito das violetas—pequeninas e modestas, denunciando-se a medo pelo seu rasto de perfumes,—e que ella costumava procurar nas hervas para encher com ellas a jarra de porcellana de Sèvres, que havia sempre sobre a mesa de costura de sua mãe.

E não penses tu que gostava menos das arvores! oh! a alma de Bertha expandia-se naturalmente para tudo que é bom e que é bello.

Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente recortados pela thesoura do Celeste Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e que sem ella saber porque, a estava chamando sempre!

Depois nas arvores é que vivem os passaros, é alli que elles dependuram os ninhos, que elles modulam as suas cantigas sem libretto, que elles cantam a quem passa as suas alegrias e as suas saudades.

As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, como se tivessem uma alma occulta sob a rugosa cortiça dos seus troncos.

Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão flôr, dão um bom cheiro sadio, que reconforta e alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas melhores amigas.

Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha muito riso falso, muita amizade fingida, muita cousa que a gente julga solida, e que no fim de contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes, os eternos amigos do homem, os que o nutrem e se nutrem d'elle, oh! esses nunca nos mentem nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!