O jardim era, pois, para a nossa Bertha um mundo riquissimo, um mundo mysterioso, onde a vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo, na ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa, na agua limpida e corrente, em tudo que rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo que enlaça a alma do homem n'uma cadeia feita de embevecimentos magicos.


E as boas horas passadas no gabinete azul, o que ellas não valiam para o pequenino coração de Bertha!

Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta toda forrada e estofada de setim azul, em que a mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.

Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era formosa, de uma delicada e fragil formosura, que despertava ao vel-a instinctos de piedade e de protecção.

Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem tem cuidados que a preoccupem, sempre vestida de seda com punhos de cabeção de rendas finas, um pouco amarelladas, que punham na toilette de casa uns toques de aristocratica distincção. Nos cabellos bastos, louros e frisados, uma flôr quasi sempre colhida por Bertha.

O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha a virtude dos valentes: a bondade. N'aquella physionomia accentuada e trigueira o sorriso era tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.

Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra, andava ganhando a vida de elegancias e de confortos, que viviam inconscientes, innocentemente egoistas, os seus dous frageis amores—a mulher e a filha.

Mas quando elle estava, que festa!

Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas felpas avelludadas do tapete, e com os grandes olhos curiosos fitos nos d'ella, ora folheando um grande livro de imagens—como o teu, minha Naly—, ora empoleirada no espaldar da larga poltrona onde o pae estava sentado, e passando-lhe a pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e crespa, Bertha era a mais feliz das creaturinhas do bom Deus!