Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade d'aquelle viver de familia!
Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n'uns dias, um vestidinho para a sua querida filha, n'outros dias, um pequeno objecto galante e mimoso para o escriptorio do seu marido; de tempos a tempos um enxoval para uma pobresinha, um enxoval muito aceiado, que Bertha dobrava e desdobrava, que servia de thema para longas interrogações, e como que iniciação da creança na doce caridade de sua mãe.
O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que contar!
Gente que vira, casos que lhe haviam succedido! planos de futuro que andava devaneando, e depois risos, brinquedos, correrias atrás do diabrete da Berthazinha, eu sei!... o demonio a quatro!
Havia alli um conchego tepido, uma alegria, uma benção de Deus, repartida por tres almas, e que parecia reflectir-se nas cousas mudas que o cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada moldura.
Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito. Era um bocadinho egoista. Um egoismo de tres, já se entende, porque ella não sabia separar a sua vida da de seus paes.
Uma das manifestações mais claras d'este egoismo era a repugnancia que tinha pelos estranhos.
Sentia frio ao pé d'elles; fugia muito pensativa e muito arisca quando via um indifferente interpôr-se importunamente entre ella e as caricias que eram o seu alimento de todos os instantes.