A principal heroina do romance, aquella que escreve o seu Diario, ao qual dá o titulo de livro, é uma rapariga apaixonadamente romantica, tudo quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto ha de menos pratico e real.

Por isso sendo moça, formosissima, sentindo cantar dentro da sua alma a festiva e triumphante symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas bellezas caracteristicas que dão a certas mulheres um aspecto de deusas, amando com aquella primeira e casta ternura das virgens um homem em tudo digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades da natureza, todas estas radiosas promessas de felicidade a quem? a que?

A um pobre mutilado que morria de amor por ella, a um soldado que voltára da guerra sem uma perna e sem um braço, informe, grotesco, irremediavelmente desgraçado, e que, assim mesmo do fundo do abysmo em que o destino o lançára, ousou amar aquella mulher olympica, e teve a audacia de tentar morrer por causa d'ella.

Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres dignas o sabem ser, consolou-o de tudo que perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente por tanto tempo.

Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a como se abençôa um anjo, ella, livre de novo, torna a encontrar o homem que amou uma vez, e que não soube esquecer.

Esse é então marido da amiga, da infancia, da juvenil viuva.

Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a caridosa creatura, lá está tentando da abnegação de cada um d'elles fazer a felicidade de ambos.

Não o consegue, e quando a amiga, culpada e arrependida se mata para fugir ao horror de mentir eternamente a seu marido, só ella no mundo recebe a confidencia do seu crime, confidencia que n'uma carta repassada de dôr a douda creança lhe pede que transmitta ao esposo ultrajado.