Le journal d'une femme, livro que eu já d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras, é uma joia admiravel, cinzelada pela mão de um artista de coração.
E depois são taes os exageros e desmandos da chamada escola realista, é tal o amesquinhamento a que ella reduz a humanidade, que é bom que um escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é Octavio Feuillet mostre que, no fim de contas, nem tudo era mau na geração que os moços de hoje tentam desthronar com tão arrogante desdem.
Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle ideal em que até agora todos punham a mira embora o julgassem inacessivel, é despir a vida das poucas flôres que ella póde ter.
Não; o homem não é só um ser organisado que pensa, é tambem uma alma que ama, espera e crê!
N'esta era de transformação e de incerta claridade, é bom que uma voz se erga e diga bem alto que a paixão só é criminosa quando mal dirigida, que o excesso do sentimento só é ridiculo quando mal applicado, que a abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da materia, e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma linguagem mysteriosa, na qual fallam com Deus.
Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, devéras deploravel, tudo que ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, que se deseje vêr com o microscopio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades, as maculas, os vermes, de tudo que á simples vista seria harmonioso e bello.
Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares cumpre apontar para algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!
Não basta negar, é necessario affirmar com convicção robusta; não basta demolir, é preciso ao lado dos edificios que se derrubam e desmoronam construir novos edificios mais ricos e mais seguros.
Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto de escola, sem comtudo perder com esta qualidade um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico, a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras obras d'arte.
Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso de certos e determinados sentimentos, á concepção mais ou menos chimerica que temos das cousas da vida, resta provar se o romantismo póde ou não póde ser nocivo conforme o terreno em que medrar e o meio em que se desenvolver.