Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva do grande romancista vinha fazer uma viagem á Peninsula e que partira já de Paris em direcção á capital de Hespanha.

Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente irresistivel.

Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer n'ella humanado e visivel, um de aquelles immoredouros typos femininos, de que Balsac foi o analysta assombroso, se é que não foi o phantastico creador.

Em Madame de Balsac havia de haver por força muito d'aquelle homem que é o producto mais genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, que era ao mesmo tempo o espirito mais sceptico e o mais supersticioso, o mais corrupto e o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, o mais positivo e o mais phantasista, o mais atrozmente eivado de todos os venenos corrosivos da civilisação moderna, e o mais primitivo e adoravelmente poetico que existe no mundo da Arte.

Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes de ser sua mulher, amparara-o muitas vezes nas suas luctas cyclopicas contra os modernos monstros—a Divida, a Calumnia, a Inveja—e tantos outros que lhe retalhavam o coração com as garras sanguinarias; acolhera-o muitas outras, cançado, vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do Impossivel; vira-o partir montado no fogoso Pegaso do sonho. Imaginario terrivel, moderno e mais complicado D. Quichote, em busca de tesouros que nunca existiram, de fabulosas hypotheses em que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos que lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; ouvira-lhe depois no seu regresso ao mundo da realidade o rir estrondoso e rabelaisiano, rir de um gigante em horas de gaudio, rir só digno d'aquella natureza robusta e fecunda em contrastes, que tinha todos os requintes aristocraticos e todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o a fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus olhos havia n'ella uma attração extranha e magnetica como quem visitou o antro de um leão e o domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.

Levei então horas e horas ideiando o meio porque me havia de approximar, eu obscura e desconhecida da illustre mulher, duplamente celebre pelo merito pessoal, e pelo genio de que era como que o reflexo vivo.

Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas aconteceu o que era de esperar: a condessa Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, o Portugal tão querido dos poetas patriotas, não era digno de uma visita sua.

Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente atravez de um livro que é a obra-prima de Balsac, o auctor de tantas obras primas que não morrem.

Este livro é a Correspondencia do grande escriptor, publicada ha pouco pela casa Calmann Levy.

Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, livro mais dramatico, mais cheio de vida e de interesse, mais empoignant, permitta-se-nos o expressivo francezismo.