N'estes dous volumes de cartas apparece-nos Balsac em toda a potencia da sua extraordinaria individualidade, e conhecer Balsac é como que conhecer a sua época, a sociedade que o produziu e formou, os vicios, virtudes, preoccupações, sentimentos, ideias e paixões do seculo extraordinario, de que elle é a synthese mais completa, seculo agitado por esse poder fecundo e malefico chamado Oiro que tamanha influencia exerceu na vida intima de Balsac.
Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, o oiro com o seu brilho fulvo, com as suas tentações diabolicas, com o seu cortejo de visões sinistras ou luminosas, com as suas miragens attrahentes e enganadoras, com as paixões phreneticas que elle cria, que elle excita, que elle exacerba, com os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, com os explendores de que é o mais perfeito creador, o oiro, esse inimigo, esse auxiliar, esse idolo humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em cascatas fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas as cousas, communica um não sei que de vertiginoso e satanico a todas as creaturas e a todos os objectos, produz allucinações doentias que desorientam e desvairam.
Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos romances eminentemente modernos de pintor mais perfeito e mais realista que a sociedade franceza do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia inteira do homem, e explica-se por todos os factos do seu agitado viver.
Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse para saciar as ambições mais desregradas, os desejos mais insensatos, o ideal de luxo mais artistico e requintado, os sonhos mais orientaes de um nababo ebrio de haschish, eis o ficto que preencheu a vida de Balsac.
Á primeira vista a gente imagina que o escriptor lhe sacrificou e subordinou tudo o mais.
Engano!
Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril revolvia milhões, aspirava á opulencia das Mil e uma noites, se lançava nas mais doidas especulações, escavava minas que não havia, procurava thesouros occultos, se exhauria emfim n'uma lucta impossivel e tenaz contra a mediocridade da sua fortuna, o escriptor severo e consciencioso não sacrificava ao ganho nem uma diminuta parcella da sua legitima gloria.
Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por certa e determinada quantia, muitas vezes vantajosa para o orçamento do poeta, mas conhecendo-lhe a singularidade do caracter especificavam no contracto que o auctor só teria direito a receber um certo numero de provas, e que, excedido elle, as correcções seriam por sua conta.
Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado nas correcções que Balsac fazia á sua custa, tão elevada era a ideia que elle tinha da perfeição da Arte.