Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos os dias pagava e todos os dias cresciam, trabalhou como um titan, trabalhou sem descanço, sem treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade de que só era capaz aquelle organismo d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil, nervoso, delicado como o de uma mulher.
Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço pelo espaço de quarenta e oito horas, conservando-se n'uma exaltação artificial, produzida pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.
Quem deixaria de succumbir a esta vida de martyrio?
Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e um annos Balsac succumbia a um aneurisma, tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis, que bastariam, repartidas, para constituir a fama de vinte escriptores.
Morreu com a penna na mão, tendo attingido as duas ambições supremas da sua vida; morreu sendo amado e sendo celebre, mas morreu antes de haver podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla da alma o amor conquistado em annos e annos de servidão cavalleiresca, de castidade monastica, de paixão secreta e delicada; a celebridade adquirida em trinta annos do mais infatigavel e violento labutar que ainda um espirito de homem concebeu e realisou.
Quanto mais se estuda aquella vida singular, maior pasmo nos avassalla o entendimento.
Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos quaes, no entanto, tinha a consciencia definida e clara.
Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas pensamentos que eram seus, diz elle analysando a sua propria vida:
«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado dos meus sonhos, sensual por temperamento, trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a todos os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; gostando dos grandes passeios, das longas viagens maritimas, desejando conhecer todos os paizes da terra, vivi constantemente immovel, sedentario, com a penna na mão, amarrado á banca do trabalho; fallador, loquaz, communicativo, ia escutar em silencio os professores nos cursos publicos da bibliotheca e do museu; vivi solitario como um monge benedictino, e a mulher no entanto era a minha chimera unica, chimera sempre acariciada, e sempre esquiva.»