«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica conservava-se-lhe pura, limpida, azulada, como a de uma creança, ou a de uma virgem, e engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados por oppulentos reflexos de ouro. Eram olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias; olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos corações, de fulminarem uma féra furiosa: olhos de soberano, de vidente e de domador!»
Madame de Girardin, no seu romance intitulado: A bengala do snr. de Balsac, falla d'estes olhos esplendidos:
«Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de masso, turquezas e ouro, cinzeladuras maravilhosas; e por detraz de tudo isto dois grandes olhos negros mais brilhantes que todas as pedrarias.
«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes olhos extraordinarios, não podia notar sequer o que as outras feições tinham de trivial ou de irregular.
«As mãos de Balsac eram de rara formosura, verdadeiras mãos de prelado, brancas, de dedos pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; era muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer quando via que as notavam».
Diante d'este retrato é mais facil comprehender o escriptor com a sua admiravel potencia intellectual, e as suas pequenas manias pueris; sympathico, bom, com vaidades inoffensivas, e austeros orgulhos, sedento de um affecto unico, e de uma celebridade que fosse só d'elle.
Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, volteiam constantemente as duas grandes preoccupações da sua vida—a gloria e a mulher!
«Tenho a alma profundamente triste, escreve elle. Só o trabalho me ampara na vida. Não haverá para mim no mundo a mulher a que eu aspiro? As minhas melancolias e tedios physicos cada dia se aggravam mais, se tornam mais longos e mais frequentes. Cahir d'este trabalho esmagador ao nada mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle doce e carinhoso espirito da mulher, por quem tenho feito tanto!»
E fez! digam o que disserem os seus detractores, ninguem como elle comprehendeu a mulher,—principalmente a mulher do seu tempo,—nas suas fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas occultas, nas suas aspirações morbidas e doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo o seu sêr, nas suas vaidades ferozes, no esquecimento absoluto, na abdicação completa de qualquer egoismo, em tudo emfim que ella tem de bello e de feio, de grandioso e de ridiculo, de puro e de maculado.
Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e mais melancolica das suas creações; La Fossette, idylica visão tão sympathica como a Mignon, e mais real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr do dever; a viscondessa de Bauseant, a duqueza de Langeais, madame de Restaud, lady Dudley, a monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, tragicas peccadoras, fascinantes, demonios que teem filtros na voz e no olhar; productos de uma civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e do seu meio, outras, eternas e sempre verdadeiras como a humanidade!