Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido orgulho que seriam ridiculas n'outro homem, e que a elle o tornam mais sympathico.

Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, tem uma confiança enorme em si, no seu talento, na sua obra, na sua missão.

Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se não só um grande romancista, mas alguma cousa menos—um grande politico!

Escrevendo Seraphita e Luiz Lambert, duas obras que lhe foram inspiradas pelas suas leituras de philosophia espiritualista, e pelas tendencias Swedenborgistas que houve n'elle n'um dado momento da sua existencia, tão intellectualmente accidentada, julga preencher uma grande lacuna, produzir alguma cousa de grande que os seculos vindouros possam pôr ao lado do Fausto!

Curiosa illusão do genio!

Como se houvesse nada menos nebuloso, menos metaphysico do que esse vigoroso realista, observador potente para quem a vida com todas as paixões que a convulsionam e agitam não conservou um unico segredo.

III

São de 1835 as primeiras cartas que na Correspondencia de Balsac apparecem dirigidas a madame Hanska, se bem que já de mais tempo dactassem as suas relações de pura e platonica amisade com a elegante e fidalga mulher, que muito mais tarde foi sua esposa.

Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas relações que o tempo modificou, e estreitou tão profundamente, mas desde a época em que esta mulher superior apparece no seu destino, a vida de Balsac tem um profundo e apaixonado interesse.