Todos os artistas de primeira ordem criam um typo de mulher, em que consubstanciam e sinthethisam todos os sonhos que tiveram, todas as aspirações que tem concebido.
A mulher que elles fazem viver com a penna, se são poetas, com o escopro ou com o pincel, se são estatuarios ou pintores, não é como alguns querem que seja, a mulher que elles amaram: é mais do que isso, é a mulher que elles queriam amar!
Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes, o seu cinzel mais avelludadas caricias, a sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais graciosas e mais finas.
E como o coração dos homens é tão vasto que n'elle cabem dous cultos que se não prejudicam mutuamente, quasi sempre esses artistas de que fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero dous typos de mulher bem diversos, e que representam como a dupla face do seu modo de sentir.
Um d'elles personifica a virginal creança cujas seducções mais irresistiveis se chamam innocencia, pudor, candura, ou ignorancia; lyrios que o orvalho da manhã corôa com um diadema de perolas, lyrios que uma aragem mais quente crestaria, e que o contacto de uns dedos brutaes lançaria por terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na plena posse da sua perigosa soberania, a mulher sereia que encanta e embriaga e mata, consciente dos seus maleficios, e gosando do seu fatal poder!
Consoante o espirito do artista se enamora da sombria belleza do mal, ou da immaculada candura do bem, assim elle trata com mais delicada predileção o eterno feminino que representa uma das faces do mesmo problema insoluvel.
Porque o homem grande ou pequeno, intelligente ou mediocre, ha de sempre amar a mulher debaixo de qualquer d'estas duas formas, ou antes debaixo d'ellas ambas.
Até os bons nas suas horas de perversão, nas crises em que no coração d'elles triumpha a porção de dominio que ha até mesmo na alma dos anjos, hão de sentir-se attrahidos por este mysterio luminoso e sombrio, que na arte pagã se chamou Circe ou Helena, que na edade média foi Melusina, que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia Borgia, que os modernos emfim conhecem debaixo de tantos nomes, que o genio de tantos homens tem revestido de prestigio magico e de superior fascinação.