Não sabia resistir senão a muito custo, a um olhar d'aquelles olhos humidos e radiantes, a um sorriso d'aquelles labios vermelhos, a um gesto d'aquellas mãos finas, esguias, pallidas, da suave pallidez dos lyrios.
Não era bem amor, era uma fascinação, uma embriaguez, uma d'estas doenças que exercem no cerebro a sua acção paralysadora.
Margarida que nenhuma força superior tentava dominar, déra expansão completa a todos os caprichos da sua colorida e quente phantasia.
Adorava o luxo, as cousas d'arte, a musica, as flores raras, frequentava muito o alto mundo onde era requestadissima, vivia na perpetua idolatria de si propria, que a pouco e pouco a inutilisava para os graves deveres da vida.
Thadeu no meio da sua céga e embrutecedora adoração obedecia-lhe como um escravo. Só elle sabia as despezas collossaes, as extravagancias principescas d'aquella pequenina pessoa, activa, graciosa, phantasista como um poeta oriental.
Mas economisava ridiculamente em todas as verbas, para que ella, a rainha, a perola, a Margarita dos seus sonhos d'outro tempo não franzisse um minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, na contrariedade de um desejo insaciado.
E ella estava tão habituada á submissão e á humildade d'aquelle pária, que o tratava como um traste, um objecto seu, com o qual não tinha de mostrar o minimo constrangimento, a minima attenção affectuosa.
—Thadeu, quero isto! Thadeu, quero aquillo! Thadeu, vi hoje na loja de F. um adereço de um conto de réis. Se o não mandar buscar até ámanhã vendem-n'o. Eu quero-o. Não me deixes ficar sem elle. Fazias-me chorar!
Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas quantas vezes lhe pedia cousas quasi tão inacessiveis como a lua!