Sem saber explicar por que, n'aquelle dia lembravam-lhe tantas cousas do seu passado!...

Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, lembrando-se das humilhações que padecêra, dos tratos com que lhe haviam enfraquecido o corpo e atrophiado a intelligencia. Depois... na sua vida, até ali obscura e dolorosa, surgia de repente envolta nas rendas brancas do seu berço uma visão deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, a sua Margarida!...

Como fôra feliz com ella e por amor d'ella...

Comtudo... pensando bem... para essa felicidade chymerica fôra elle quem fornecêra todos os elementos. Ella nunca vira no pobre Thadeu senão um instrumento dos seus caprichos, um escravo das suas vontades...

Em todas as delicias com que dourara a sua vida não havia uma só que fosse nascida da vontade de ser-lhe boa, util, consoladora!...

—É verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade! Ella nunca teve coração!

E suspendeu-se como que aterrado d'aquella blasphemia.

N'este momento Margarida entrava pelo quarto de Thadeu, pallida como um cadaver, com os grandes olhos dilatados n'uma expressão de indescriptivel pavor.

Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, n'uma voz estrangulada e rouca: