—Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. Contava que elle viesse ámanhã. No meu gabinete ha uma pessoa que deve sahir sem que meu marido a veja. Ouves? Estou perdida... Estava perdida mas lembrei-me de ti... Salva-me...
Não me digas nem uma palavra, proseguio vendo que elle ia fallar. Uma demora de segundos perde-me sem remissão.
E sahiu com o seu passo miudinho, o seu passo chic, aprendido de passagem nos boulevards de Pariz.
Thadeu sahiu do quarto, e quando tornou a entrar ali, acompanhava-o um moço muito pallido, de bigode louro, cabello cuidadosamente frisado e toilette irreprehensivel.
Não trocaram uma palavra. Thadeu apontou-lhe para uma cadeira, fechou a porta do quarto á chave e sentou-se junto da janella, que dava sobre o jardim.
Era em plena primavera. Pela janella aberta entrava um perfume vago e subtil, um perfume de rosas, de madresilva e de baunilha em flôr.
Ouvia-se o rir e o chilrear das duas creanças, e entre as ramarias entrelaçadas dos grandes arbustos exoticos, Thadeu viu passar com os seus meneios serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabelladura d'ouro, a figura esbelta de Margarida pendida ao braço do esposo com quem fallava baixinho.
Foi a ultima visão que teve d'ella.
Uma visão de perfidia felina e de felina formosura.