—Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o rapaz seja meu filho, mas disse-me o prior, e olhe que o prior não é tôlo nenhum, pois disse-me o prior que o meu pequeno era o melhor estudante que andava nas aulas de Braga, que lh'o tinham dito os proprios mestres. Aquillo tem uma memoria! E então lêr! Ás vezes estava horas e horas a ouvil-o, fazia gôsto. O talho da lettra já foi melhor, isso foi, mas o prior, a quem eu disse isto, consolou-me, dizendo-me que todos os doutores tinham má lettra. Assim será, mas as primeiras cartas que o pequeno me escreveu, quando foi para o estudo, podem mostrar-se... Quer você vêr uma d'essas cartas?...
Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não havia uma só pessoa que para o lisongear, ao encontral-o, lhe não perguntasse pelo filho.
—Obrigado, vae bom! e com um sorriso doce, enternecido e caridoso envolvia o da pergunta.
O tempo das ferias, sobretudo as do Natal, que é quando se mata o porco, e se fazem filhós, e se conversa animadamente em volta da lareira, era anciosa e impacientemente esperado pelo velho; todas as noutes ia ao reportorio, que tinha á cabeceira da cama, e pondo uma cruz no dia que findára, dizia jubiloso:
—É de menos um!
Na vespera da chegada do filho, era uma azafama, um revolver as velhas arcas de onde se exala um forte cheiro de maçãs camoezas, e um andar tudo n'uma poeira n'aquella casa.
—Esta cama não tem roupa bastante, Joanna, dizia para a creada; vá buscar mais um cobertor!
E alisava a colcha, endireitando a fronha da travesseirinha, e repetindo:
—O estudante é muito mimoso, e depois faz frio que não é brincadeira!
Ia á cosinha, era preciso comprar isto e mais aquillo. Examinava os armarios, passava revista aos frascos das compotas, e punha de banda as garrafas de vinho antigo.