«O pae de Sebastião está longe, vive em plagas distantes, em terra de Santa Cruz n'esse paiz uberrimo, monstruoso, gigante, que se chama o Brazil, e onde os nossos recebem uma hospitalidade tão franca e tão generosa. Brindando ao pae de Sebastião, brindo aos nossos irmãos de além-mar.»
—O que diz elle? resmungou o tio Sebastião, que eu estou no Brazil? Não é má!... e atabafava o riso.
O brazileiro comprehendeu tudo e murmurou: canalha!...
Um dos rapazes que fôra condiscipulo de Sebastião em Braga, voltando-se para este, disse:
—É verdade, ó Sebastião, aquelle velhinho que uma vez te acompanhou á mala posta, e que eu vi a chorar como uma creança na rua da Conega quando se despediu de ti, era teu avô? Muito gostei eu do velhinho. Parece que o estou a vêr a acenar-te com o lenço, correndo com as suas pernas tropegas e cansadas atraz da carroagem, a dizer: O Senhor vá na tua companhia!
Sebastião avincou o rosto, um rubor subito incendiou-lhe as faces, e partindo uma noz, respondeu:
—Esse velho era caseiro de uma quinta que meu pae comprou quando esteve ultimamente em Portugal.
O tio Sebastião voltou-se para o brazileiro. Estava livido, tinha os labios apertadamente unidos, os olhos injectados de sangue. Esteve um segundo, com os olhos fitos nos do cunhado, sem poder articular uma palavra, bamboleando a cabeça, respirando offegantemente pelas narinas palpitantes e dilatadas; depois cahiu nos braços do cunhado e prorompeu n'um soluçar dilacerante e pungitivo:
—Ingrato! ingrato!