O advogado Vasconcellos morrêra pobre, sorte de todos os causidicos de provincia, que logram vencer, quando muito, por mez, o que qualquer dos collegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados trintanarios.

Filho segundo de uma casa de bom nome na provincia do Minho, cursava canones e leis na Universidade, no anno de 1828, emigrando n'esse mesmo anno, e vindo terminar o curso mais tarde, depois de ter defendido a causa da liberdade, de parceria com outros condiscipulos, que tão assignaladamente se distinguiram depois na politica, nas armas e nas lettras.

Depois de formado, recolheu-se á sua villa natal, e não podendo contar com a mezada que seu irmão lhe arbitrára, visto que os rendimentos da casa mal chegavam para a alimentação e sustento do primogenito, abriu banca de advogado, dependurando de um dos lados da estante de pinho, encimada pela pasta verde e encarnada de quintanista, a lata com os seus pergaminhos de bacharel in utroque, e de outro lado a farda impregnada da polvora de vinte combates e varada pelas balas dos servidores d'el-rei nosso senhor, no cerco do Porto.

A formosa irlandeza que o acompanhára no exilio, e que lhe foi denodada companheira nas asperas provações da vida, morreu-lhe pouco tempo depois, deixando-lhe dous filhos, um rapaz e uma menina.

Tanto um como outro eram educados com sollicitude e esmero, que para a educação dos dous não se forrava aquelle pae amantissimo nem a despezas nem a trabalhos.

O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o convento das Salesias em Lisboa, de onde recolheu quando o irmão entrava para o primeiro anno juridico.

—É preciso estudar, Antonio, olha que se eu não tivesse aquellas cartas, tinha de andar a cavar nas hortas de meu irmão, ou de esmolar nas escadas ignobeis das secretarias um logar de porteiro ou de amanuense, e isto ainda assim, apresentando como documento dos meus serviços aquella farda...

Não eram necessarios estes conselhos. Antonio de Vasconcellos foi sempre um sisudo moço, estudioso, o que não quer dizer que aquella mocidade fosse bisonha e avessa ás ridentes alegrias dos vinte annos.

Pobre da arvore que ao sorrir da primavera se não estrelleja de flores, e em cujos ramos folhudos e a revêrem seiva não cantam as toutinegras e não assobiam os melros!