Recolhia-se á sua casa, em Coimbra, o moço estudante, alegre e contente de si por ter correspondido bizarramente, n'uma sabbatina, ao alto conceito em que o curso o tinha, quando lhe entregaram uma parte telegraphica.
Rasgou alvoroçadamente o sobrescripto, leu e empallideceu horrivelmente.
—Meu querido pae! murmurou, e curvado sobre a sua mesa de estudo deixou cahir a cabeça nos punhos fechados. Pobre pae! pobre pae! que me não chegou a ver bacharel!
Na manhã do dia seguinte entrava por casa dentro, ao passo que descia as escadas o caixão em que vinha mettido o pae.
Quizeram-no affastar, esconder-lhe aquelle espectaculo lutuoso, mas elle resistiu, e abraçado ao cadaver do pae chorava como choram os que de repente sentem que o braço amoravel que os guiava n'esta vida enfraquece e esfria para sempre, deixando-os na mais desconsolada e algida das solidões.
Amparado nos braços de um amigo da infancia, entrou no aposento em que a irmã pallida e desfeita expedia gritos clamorosos e hystericos.
—Sósinha, repetia a misera, sósinha!
—E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste do teu irmão? disse o moço engulindo as lagrimas, e fazendo-se forte para dar coragem á desgraçada menina.
Assim no alto mar quando o temporal arripia e ennovela as ondas, e o velame bate nos mastros com o ruido molhado das azas de uma ave que se afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja ante a morte proxima e inevitavel, o capitão que tem filhos e esposa, longe n'uma pequena aldeia á beira-mar, dá ordens com voz tranquilla, e commanda a manobra com a serenidade de quem vê perto as aguas quietas e espelhadas do ancoradouro.