Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escriptorio. Examinou as gavetas e os moveis, a vêr se o pae havia feito as suas ultimas disposições. Não encontrou senão minutas, autos, libellos em principio, considerações juridicas.
—Parece-me que o estou vendo! A ultima vez que o vi, estava aqui sentado e perguntou-me a rir se eu sabia o que era um libello!—disse o moço para a irmã, que o acompanhava.—Respondi-lhe, e elle tornou:
—Caspité! Pois olha, que quando deixei Coimbra não o sabia. A minha universidade foi esta banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois tu verás!
Mal sabia elle que eu nunca havia de vêr isso...
—E porque, Antonio?
—Porque? porque estamos pobrissimos. O pae morreu honrado, mas sem recursos. O que nos resta, filha, são umas cincoenta moedas, que a nossa velha Joanna ajuntou com as soldadas ganhas no serviço da casa de nossos avós, e n'esta... casa que é hoje d'ella, porque é ella que nos tem sustentado desde que nos faltou o nosso querido amigo...
Bateram n'este momento á porta do escriptorio, Antonio de Vasconcellos foi abrir. Appareceu no limiar da porta um lavrador que disse, desbarretando-se:
—Queria dar uma palavra ao sr. doutor...
—Meu pae falleceu esta semana...