N'aquella época chegara a Lisboa um individuo que fôra o mais perdulario dos leões da Lisboa de ha trinta annos, e que presentemente occupava um elevado lugar diplomatico em uma côrte estrangeira.
Contavam-se d'este homem excentricidades que fariam morrer de inveja o mais fastiente e spleenetico dos lords. Batera-se vinte vezes e por motivos diversos, por questões de jogo, por questões de mulheres, e por questões de politica.
Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais bem acabado producto do seu tempo e do seu meio.
Agora velho mas sempre original e taful, era estimado por todos, querido nas salas, temido ainda na imprensa e respeitado pelos politicos a quem asseteava com o acre azedume de quem já mourejou nos bastidores da politica, e lhes conhece de sobejo os fumosos mysterios.
Estava Antonio de Vasconcellos no Chiado, conversando com um condiscipulo, quando o diplomata se apeou de um trem, e se deteve a conversar alguns instantes com umas senhoras que iam passando.
—Sabes quem é aquelle sujeito? perguntou-lhe o condiscipulo.
—Não.
—É Jorge de Alvim. O velho mais moço que passeia n'esta cidade sorumbatica e sôrna...
—Esse nome não me é estranho. Foi condiscipulo de meu pae que o estimava e tinha em grande conta, e até se me não engano, queimei uma larga correspondencia travada entre aquelle homem e meu pae. A elle pessoalmente não conhecia, mas é sympathico.