Sua tia, uma vez em que a bebé chorava muito nos braços da ama, dissera a Thadeu com uma voz menos glacial do que o costume:
—Thadeu, brinca com a prima a vêr se ella se cala.
E elle fizera calar a rabujenta pequerrucha.
Desde esse dia soube-se que a menina tinha o insolito capricho de adorar Thadeu, de rir quando elle estava de joelhos dobrado sobre o seu berço, de chorar quando alguem o levava d'alli para fóra.
A ama tomou o costume de o chamar e de o fazer estar horas e horas a entreter a menina.
Ao principio elle fazia-lhe carêtas e momices, como as que usava fazer para divertir seu tio; depois, sem bem perceber porque, adoptou outro systema inteiramente opposto.
Percebeu que a pequenina não queria um bôbo, como esse espirito embotado e pervertido que o victimára com os seus caprichos. O que a bebé queria, na ingenuidade adoravel do seu despotismo infantil, era um companheiro de seus brinquedos, um socio, um escravo que a adorasse.
Thadeu era tudo para ella: queria-o perto da grande tina em que tomava o seu banho de manhã; queria-o junto da pequena mesa de nacar onde a ama lhe dava as sopinhas; queria-o no berço ao adormecer; queria-o no jardim, á sombra das arvores, sobre a arêa finissima, onde se rolava, vestida de rendas brancas, a rir como uma perdida.
Chamaram-lhe Margarida.
Margarida quer dizer perola, e Thadeu, que vira muitas vezes sua tia vestida de baile, achava um nome muito bem posto áquella creança branca, transparente, loura, idealmente graciosa.