Anthero de Quental

a obra e a sua morte

I

«Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dôr nos evocastes?»
Mas os deuses com voz ainda mais triste,
Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»

«Morte! irmã do Amor e da Verdade»


Espectros que velais emquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e cançados
Me encheis as noites de agonia e susto!...
De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados,
Disputar dia a dia á mão dos fados
Uma parcella do saber augusto.
Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se até dormindo, com angustia immensa
Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma, verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrença!

Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram...
Deixal-a ir, á vella que arrojaram
Os tufões pelo mar na escuridade,
Quando a noite surgiu na immensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixal-a ir a alma lastimosa,
Que perdeu a paz e fé e confiança
Á morte quêda, á morte silenciosa...
Deixal-a ir a nota desprendida
De um canto extremo e a ultima esperança...
E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!