[18] Escrevendo há mais de treze anos estas palavras, mal sonhávamos que havíamos de publicá-las num tempo em que elas já não teem exacta aplicação.

Nós somos os desgraçados contemporâneos dos horrores da grande guerra, dos crimes inauditos da Rússia e da Alemanha, e que de longe vimos o morticínio horrendo de que foram vítimas inocentes as filhas e o filho do Czar, e o assassínio atroz dos Pais, os que chegámos à velhice saciada de horror, vendo a humanidade peor do que nunca foi, vendo a civilização a tão falada civilização num retrocesso tenebroso que nos apavora e nos assombra.

Tudo que afirmamos com tamanha fé, nos parece falso, ilusório, mentido. O sentimento do horror há tanto desconhecido tornou-se a apossar dos nossos cérebros e dos nossos corações. Um pavor medonho oprime hoje as almas. Pensar é descer ao mais negro e profundo dos abismos!

CAPÍTULO II

Leonor em Chelas.—Antiguidade e origem dêste convento.—Vida conventual.—As cartas do marquês de Alorna a sua mulher.—Não são escritas com sangue.—Correspondência entre Leonor e o pai.—O incidente entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia.—Versão correcta e autêntica dêste incidente que anda desfigurado nas biografias de Leonor.—Estudos.—Leitura dos filósofos franceses.—Lutas de Leonor com o pai, a mãe, a condessa do Vimieiro.—O esquecimento do passado e do presente procurado no estudo.—Confiança que Leonor tem no pai.—Festas de Chelas.—Outeiros.—Representação de Atália.—Intermédios jocosos.—Coragem e alegria de Leonor através de todo o seu infortúnio.—O problema religioso.—Ilusões simpáticas do espírito de Leonor.—O marquês de Alorna condena Voltaire a ser queimado.—Admirável resposta de Leonor.—Discussões acesas de Leonor com os confessores do convento.—Lutas de consciência.—Antagonismo entre Leonor e o seu meio.—Fantásticos projectos de salvar seus pais.—Cartas a Luís XV e a Voltaire.—Mau francês e óptimos sentimentos.—Controvérsias literárias e poéticas entre o marquês de Alorna e Leonor.—Bom senso e bom gôsto do marquês.—O que Leonor diz a respeito do amor.—A Zamparini e várias anedotas da côrte.—O marquês de Gouveia e Maria de Almeida.—Entusiasmo com que Leonor antevê a factura existência dos seus no campo.—Influência de Rousseau.—Dois projectos de casamento para Leonor.—Retrato de um fidalgo ignorante.—Versos de Chelas.—Os sonhos de Leonor.—O príncipe azul.—Morte do rei que vem libertar a família de Alorna.

Como no anterior capítulo foi dito, a 14 de Dezembro de 1758 entravam a marquesa de Alorna e suas filhas Leonor e Maria, no convento de Chelas. Fica, como se sabe, nos subúrbios de Lisboa êste mosteiro, ao qual frei Luís de Sousa consagra longos períodos de que citaremos os que seguem:

«Junto à cidade de Lisboa, ao norte dela, em distância de quási uma légua, há um vale por cópia de quintas e frescura de hortas e pomares assás deleitoso, que chamam Vale de Chelas. Havia nêle pelos anos em que vamos, de 1223, uma igreja tão antiga na primeira fundação que, sem haver quem disso duvidasse, se referia ao tempo em que a primitiva igreja florescia com favores do céu e perseguições da terra, porque sendo regada com rios de sangue de infinitos mártires, que cada hora padeciam, tomava fôrças do mesmo ferro e fogo com que era perseguida, e ia crescendo e pulando, e tomando posse do mundo. Assim é cousa certa que deram ocasião a se fundar esta igreja os gloriosos mártires S. Felix e Santo Adriano, porque padecendo ambos em tempo de Diocleciano imperador, animosa e santamente pela fé, Felix em Gerona de Catalunha, aonde veio buscar o martírio, fugindo da cidade Scilitana em que nascera, e da de Cesária em África, onde seus pais o criavam no estudo, e Adriano sendo martirisado em Nicomédia de Bithinia, por varios casos, e em tempos diferentes, vieram as santas relíquias de ambos, com muitas de outros companheiros do martírio aportar neste vale, e no lugar da igreja onde naquele tempo chegava o mar, que agora lhe fica longe quási meia légua. Foram os mártires conhecidos pela relação de quem os acompanhava, mas logo reconhecidos e reverenciados por meio de esclarecidos milagres que obraram.

«Edificou-lhes igreja a devoção de Lisboa, e foram honrados nela debaixo do nome de S. Felix, ou porque padeceu em terras de Espanha, ou porque foi o primeiro em chegar ao vale; e em testemunho da grande antiguidade ficou com o nome quási trocado no povo, chamando-se S. Pero Fins de Achelas.

«Na entrada dos mouros, que depois sucedeu, de crer é que o mêdo e a confusão que por castigo do céu oprimia os ânimos, usaria do remédio mais fácil para salvar as santas relíquias, que era enterrá-las no mesmo lugar e encomendá-las aos mesmos santos»[19].