«Lançados os mouros de Lisboa pelo braço e valor de el-rei D. Afonso Henriques, purificadas as igrejas que haviam em pé, e reedificadas pouco a pouco as que estavam em ruína, foi povoada esta de frades, o que se vê das provisões e outros instrumentos autênticos do cartório dela, que particularmente vimos, notámos e cotámos»[20].

Parece que os mouros reconquistando Lisboa aos leonenses expulsaram de Chelas seus habitantes, e converteram a igreja em mesquita, porquanto el-rei D. Afonso Henriques, tratando de purificar e restituir ao culto divino vários templos que os infieis tinham profanado, fôra um dêles o convento de Chelas, sendo celebrante o bispo de Lisboa D. João Peculiar, e assistindo o soberano à cerimónia da purificação e ao descobrimento e transladação das relíquias que estavam em duas caixas de mármore, as quais foram colocadas na capela mor, de modo que ficaram servindo de altares de S. Felix e de Santo Adrião[21].

Primeiramente foi o convento duplex, e povoado pelos cónegos regrantes de Santo Agostinho. Deixou depois de ser duplex, e só nêle ficaram religiosas; não se sabe, porêm, o ano em que isto sucedeu.

O que, porêm, de tudo que acêrca dêle se escreveu pode com certeza deduzir-se, é que êste convento de Chelas é dos mais antigos e memoráveis de Lisboa.

A porta principal da entrada é de um lindo gôsto manuelino. O convento vasto, mas sem nenhuma beleza de arquitectura digna de nota. O côro em 1883 ainda se podia considerar um pequeno museu[22] onde se encontravam várias obras artísticas, tais como quadros, jarras de merecimento, imagens de prata, loiças do Japão, etc.


Não se recomendavam pela austeridade da clausura nem pelo ascetismo contemplativo das monjas os conventos do século XVIII em tôda a Europa ocidental.

Passara havia muito o tempo dos milagres, das visões místicas, da loucura da cruz. Já ninguêm se supliciava em martírios de uma pungitiva delícia, na expiação de grandes paixões terrenas, ou na esperança ardente de uma sonhada bemaventurança. Um frígido sôpro passara, esterilizante e devastador, pelas almas e pelas consciências do tempo.

Leonor de Almeida não teve, pois, a sentir ali uma pressão que em parte alguma já existia nessa época. Pelo contrário; seria doce e calma a vida conventual para quem não tivesse lá dentro um desgôsto a minar-lhe a existência.

Reflecte-se uma espécie de suavidade íntima, de alegria transcendente no rosto das mulheres consagradas desde a mocidade à vida do claustro ou às missões da caridade. Despindo as tumultuosas paixões e as intermitentes alegrias humanas, elas despem tambêm a faculdade de se interessarem, de se entristecerem, de vibrarem ao influxo dos sentimentos mundanos.