Apagado nas almas o sombrio ascetismo mediévico, essa nevrose de que o mundo cristão sofreu tão intensamente durante séculos, ficou a doce calmaria conventual a substituí-lo. As rezas variadas, as minuciosas práticas do culto, o cultivo caprichoso das mais lindas e cheirosas flores, a produção geitosíssima de flores artificiais, de paramentos ricamente bordados, de doces em que se exibia a fantasia colectiva de cada convento, as distracções inocentes que dava a cada uma êste trabalho, para todos proveitoso, a tagarelice natural a pobres mulheres ignorantes sem responsabilidade de árduos deveres nem compreensão nítida do seu sacrifício, as visitas à grade de parentes e amigos enchiam ali o monótono giro dos dias e dos anos.
O século XVIII tinha tambêm os seus outeiros, as suas eleições, as suas festas de locutórios e de igreja.
Acudiam poetas às solemnidades do abadessado e, desde Filinto até Bocage, quantos ali fizeram brilhar o seu engenho, glosando motes, improvisando sonetos, repetindo quadras e décimas amaneiradas e requintadas. Os filhos segundos das primeiras casas do país interrompiam então as tropelias de toureiros, as arruaças nocturnas com que se deleitavam em assustar o burguês pacífico, e vinham tambêm espreitar sob o véu que a meio lhes ocultava o rosto, os lindos olhos coriscantes, os rubros lábios risonhos, as morenas faces penugentas como pêssegos, das suas primas e parentes, as lindas noviças, as doces raparigas destinadas ao serviço de Deus, por não haver cá fora quem as quisesse sem dote, ou por não consentirem as famílias que elas deslustrassem a sua altiva prosápia em casamentos menos dignos da preclara origem do seu nome.
Era um tempo estranho êste. A crença primitiva embotara-se nas almas, deixando ainda nos lábios o seu vocabulário especial, a sua tecnologia sagrada. Ninguêm se revoltava ainda abertamente contra os abusos de um regímen religioso e político que, degenerando da sua nobre origem, tinha conservado os defeitos e perdido as grandes qualidades que o haviam feito longamente viver; ninguêm se revoltava em palavras, mas as obras correspondiam ao relaxamento de tôda a disciplina, à tibieza crescente de tôda a fé.
Leonor de Almeida, dentro do convento de Chelas, pôde, mercê dessa transformação completa da disciplina conventual, ler, pensar, instruir-se, formar uma concepção pessoal do mundo e da vida, sem que ninguêm ousasse intervir no fôro íntimo da sua juvenil consciência.
Ninguêm, engano-me. Intervinham amiudadas vezes o pai, a mãe, a amiga mais querida de Leonor, a condessa de Vimieiro, Teresa de Melo Breyner, a quem ela, em versos e cartas, chama poéticamente e arcádicamente à moda do tempo, a sua Tirce. Mas a todos estes ela iludia com hábeis sofismas, ou contradizia com rigorosos argumentos. O mais penetrante espírito com que o seu se correspondia era o do pai, o marquês de Alorna, muito mais ilustrado, muito mais inteligente que o vulgar da sua classe e do seu meio, mas imbuído de muitos dos preconceitos de ambos.
Temos felizmente à vista parte das cartas inéditas dirigidas por Leonor de Almeida ao marquês seu pai, e por elas podemos reconstruir a vida das três senhoras no convento de Chelas, modificando e corrigindo com a publicação de documentos autênticos alguns dos erros que se notam no prólogo às obras poéticas da marquesa, publicadas em seis voluno ano de 1844.
Nesse prólogo, que não traz nome de autor, mas no qual se sente a inspiração da filha da marquesa de Alorna, D. Henriqueta, então dama camarista da senhora D. Maria II, se diz que o marquês de Alorna, pai de Leonor, escrevia à espôsa do seu cárcere da Junqueira, tendo por tinta o próprio sangue. Exagêro romanesco êste, que se acha desmentido no prefácio do folheto escrito pelo próprio marquês de Alorna, e publicado mais tarde pelo presbítero José de Sousa Amado, sob o título que damos em nota[23].
Citemos o período que explica e esclarece êste ponto importante da vida do prisioneiro:
«Naquelas prisões, onde por tanto tempo gemeu a inocência e o merecimento, os presos eram privados de tinteiros, talvez pelo receio de se relacionarem uns com os outros, ou com suas famílias. O autor, porêm, desta memória excogitou um meio que muito bem lhe surtiu, para haver tinta; e foi lavar os pés das cadeiras que lhe deram pintadas de vermelho, com o vinagre que lhe ia ao jantar.»