Foi com esta tinta, de um róseo desmaiado, que temos à vista, que o marquês escrevia à mulher e à filha.
Sem serem própriamente as clássicas masmorras de séculos mais cruéis do que êste, que ainda o era tanto, os cárceres da Junqueira eram suficientemente escuros e lôbregos e infectos para que não seja necessário acrescentar à sua história tenebrosa a lenda do sangue usado como tinta pelos prisioneiros desgraçados.
Em algumas das celas em que os presos viviam—como, por exemplo, na do marquês—tão débil era a claridade do dia que penetrava por uma estreita fresta, que a luz tinha de estar perpétuamente acesa para que os infelizes que ali habitavam podessem escrever ou ler ou remendar os seus miseráveis andrajos[24]. Por falta de tratamento e de curativo ali enlouqueceu o conde de S. Lourenço, ali morreram o conde de Óbidos e o conde da Ribeira. Ali sofreu inocente a mais atroz miséria D. Martinho de Mascarenhas, o filho do duque de Aveiro, conhecido entre os presos pelo Marquesito, e a cuja caridade engenhosa, a cuja bondosa solicitude o pai de Leonor tanto deveu na sua enclausuração. O marquês de Alorna foi, porêm, dos poucos que suportaram, em plena integridade mental e sem grandes sofrimentos físicos, êsse período tenebroso e cruel, êsse período de tormentosa perseguição que durou dezoito anos.
As cartas de Leonor, e algumas do marquês, que tivemos a fortuna de ler, revelam os finos quilates dêsse carácter de fidalgo, fiel à religião em que se criara, e na qual achou confôrto e fôrça para o longo suplício; fiel à instituìção monárquica a cujos abusos devia a sua imensa desgraça e a dos seus; coerente consigo próprio, como se não pode ser nas épocas de transição, tais como aquela em que a filha vai desenvolver-se e vai viver. O marquês de Alorna viajara, vira a côrte de França no seu ainda absoluto esplendor de etiqueta e luxo; comparara as cousas lá de fora com as nossas, e percebia a fundo a abjecta decadência em que a pátria tinha caído.
No prefácio das obras, já citado, vem a narração do incidente, ligeiramente cómico, havido entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia, mas em circunstâncias que as cartas que temos à vista contradizem.
Nem o arcebispo ameaçou Leonor com as iras do marquês de Pombal, nem a condenou a dois anos de clausura ainda mais estreita do que já era a sua; nem tão pouco a gentil poetisa de Chelas lhe deu a resposta corneliana de que reza o prefácio. Foi muito mais pacífica e muito menos romanesca a sua entrevista com o prelado. Ouçam-na tal qual ela a narra a seu pai, em uma das suas cartas:
«Chegou meu irmão a Lisboa, bem galante e estimabilíssimo, não obstante as melhoras de minha mãe, o ar frígido e coado das grades meteu mêdo ao médico e não houve remédio de condescender com os desejos que ela tinha de o ver. Passados três dias de meu irmão estar em Lisboa fêz que, muito impaciente de ver minha mãe, obtivesse um tácito consentimento da prelada, entrasse com um barril de água, que lhe custou, mas deu tudo de barato. Jantou connosco, tivemos um dia de folga, todos juntos, e saíu meu irmão à noite, segundo o costume conventual, o qual admite aqui infinitas pessoas com qualquer pretexto. Minha mãe estava fora da cama, muito contente com o filho, e nós igualmente com o irmão, nem por sombras imaginávamos que isto seria prejudicial a coisa nenhuma. Entretanto as freiras, furiosas contra nós, davam conta aos prelados, com o aspecto mais horroroso que é possível, e no dia seguinte veio a aia da prioreza chamar-me a mim e à mana, da parte do arcebispo de Lacedemónia. A primeira coisa que me lembrou foi responder que não queria lá ir. Mas permitiu Deus que minha mãe julgasse o contrário, e fomos ambas, eu e a mana. Ao entrar na grade apresentaram-se-nos dois homens; um dêles valia por um esquadrão; era uma baleia de rebuço em um capote de baeta usada, um daqueles cónegos que pasma à l’aspect d’une soupe, e sem mais cumprimento com as pupilas se assentaram os nossos dois prelados. Êste gordo era o inspector, e o arcebispo, de menor volume, disse: «V. Ex.ᵃˢ podem estar a seu gôsto.» Sentámo-nos, escarrou êle, tossiu e se rengorgeant na cadeira, principiou: «Sua majestade, a quem constou o atentado que hontem cometeram seu irmão e v. ex.ᵃˢ, violando a clausura, me manda repreender a v. ex.ᵃˢ ásperamente, e é servido ordenar que v. ex.ᵃˢ não tornem à grade até segunda ordem, e que andem vestidas honestamente, e que as suas criadas se reformem nestes oito dias, passados os quais, se o não fizerem, tem a prelada ordem para serem expulsas.» Eu e a mana ouvimos em silêncio, modestamente, estes quatro versos, e acabada uma grande prelenga que êle fêz sôbre as imunidades da clausura, respondi eu que o nome augusto de sua majestade bastava para que pessoas que tinham sido educadas com honra olhassem só com respeito quaisquer ordens, e que eu segurava a s. ex.ᵃ que elas seriam executadas com fidelidade e prontidão. Porêm, que o nome atentado era tão horroroso, que depois de protestarmos a nossa obediente submissão, restava ainda pôr na sua verdadeira luz o pretendido atentado e convertê-lo numa acção generosa, digna da piedade dos nossos legisladores, e alêm disso conforme às liberdades que eram concedidas a minha mãe. Pintei-lhe com côres bastantemente vivas um filho que despreza o trabalho mais penoso para consolar uma mãe aflita, e satisfazendo com o seu cansaço as apertadas leis da clausura. Disse-lhe que havia uma multidão de casos idênticos, e que só dezesseis anos de pezares sem esperança de alívio davam motivo a que abusassem do nosso estado as nossas acusadoras... A respeito dos vestidos os nossos não foram invejados senão por limpos, e o arcebispo mesmo se riu das respostas filosóficas (sic) que lhe dei, e da prontidão com que me quis logo vestir de côr à sua escolha, achando-me muito honrada, que el-rei se dignasse dar ordens em uma matéria que eu muitas vezes deixava ao arbítrio do mercador... A reforma das criadas consiste em dois covados de cassa postos na cabeça. Considere v. ex.ᵃ que dificuldades e que casos fazem rodar um arcebispo de Lisboa aqui, chamar-nos, repreender-nos, e no fim dizer-nos que não necessitávamos de enfeites porque somos muito bonitas. Ria-se meu querido pai, e olhe para estas cousas como merecem.»[25]
Esta citação dá o estilo epistolar de Leonor de Almeida, que sómente ousámos alterar na pontuação e na ortografia, pois que ambas são muito defeituosas. Viva e pronta na réplica, animosa na crise, sem covardia de género nenhum, nem moral, nem física, e usando com
facilidade e graça a fraseologia peculiar do seu tempo em que a filosofia intervem a propósito de tudo. Contamos por inteiro a anedota por não ser inteiramente conforme à que se conta no prefácio das obras poéticas da marquesa de Alorna, e por esta última versão ter sido inalterávelmente repetida por todos os biógrafos que se teem ocupado da nossa poetisa[26].