Nos dezoito anos do seu cativeiro, a primeira e mais querida ocupação de Leonor de Almeida consiste no estudo e na leitura incessante de todos os livros que lhe vêm parar às mãos. Não preside a essa leitura nem método rigoroso, nem critério seguro. Em Portugal, e naquele tempo não o havia nem nos melhores espíritos.
Muita vez Leonor se entusiasma por um autor que não merece êsse preito, muita vez mistura à lista de grandes mestres, em literatura ou em filosofia, um nome absolutamente medíocre; outras vezes, falando de autores mais célebres, deixa entrever que os compreende mal, ou que não os compreende de todo.
Mas a sêde de saber devorante, angustiosa, intensa e viva, como uma paixão que é nela absorvente, ilude-lhe deliciosamente os longos anos, os intermináveis dias da sua estreita e monótona clausura.
Leonor estuda latim e com singular aproveitamento; estuda o francês, o italiano, o inglês, o alemão; chega a estudar o árabe! Aprende e cultiva a música, canta no côro as belas melopeias sacras da liturgia católica e conventual, e na grade, no lucutório, nos serões da abadessa as cançonetas italianas com letra de Metastásio, as árias dos compositores do tempo, franceses e italianos.
Por conselho do Dr. Inácio Tamagnini, seu médico e seu amigo, põe-se um belo dia a estudar lógica, declarando ao pai que «não basta a lógica natural, que isso não é mais que um caminho andado para a saber, e por melhores que sejam as disposições, se a arte nos não diz que cousa é proposição lógica, se nos não faz conhecer que cousa é idea da imaginação ou do entendimento, quais são os erros que nos vêm dos sentidos e quais da autoridade, que cousa é crítica, o que são as ideas simples ou complexas, o silogismo, o maior, o menor, a conclusão, antimema, dilema, sorite, etc., nada disto revela a natureza.»[27]
Portanto, ei-la que lê com afinco o professor Félice, o padre Teodoro, e Wolfio, e Verney e Port Royal, aconselhando estes autores e estes livros ao Marquesito de Gouveia, companheiro de cárcere do marquês de Alorna, e que êste sonhara dar mais tarde por marido a D. Maria de Almeida, a encantadora e fina irmã de Leonor, tão letrada ou quási tão letrada como ela, e para agradar à qual não bastam a nobreza, a elegância patrícia, a formosura viril, é tambêm indispensável a filosofia e a lógica!
A respeito dêste novo estudo compreendido sob os conselhos do bom médico, a quem o marquês de Alorna manda agradecer da Junqueira, a vida e a educação intelectual da talentosa filha, eis como o pai lhe responde inteiramente ao corrente do assunto versado:
«Parece-me muito bem o estudo da lógica, de que depende tudo quanto cabe no discurso humano, e muito particularmente a poesia e a retórica.
«Desta última arte tambêm seria conveniente que visses algum tratado.
«Nesta matéria bem sabes que te tenho falado há muito tempo. A lógica que algum dia te inculquei foi de Port Royal. Não conheço a de Mr. Félice, mas como nessa matéria não se pode inventar nada de novo tudo vem a dar no mesmo, com mais ou menos impertinência. É estudo algum tanto fastidioso, principalmente para os que teem mais lógica natural, mas os desta casta em pouco tempo o poderão devorar, e melhor é que não se dilatem nêle com excesso, porque nesta matéria o demorado artifício faz algum dano à boa natureza. Esta casta de lição tem um certo tempo em que consiste a sua conveniência, e da mesma forma que é muito proveitoso ter regras para se não equivocar com falsas aparências, como sucede muitas vezes aos poetas, tambêm o espírito sofístico não presta para nada.»