No meio dos seus estudos mais enfadonhos, as horas de distracção são tomadas pela leitura.

Pede licença ao pai para ler Rousseau[28] e Condillac, e Diderot, e Voltaire: decora Racine e Corneille, e ainda mais, Crébillon tambêm, a quem a França chamou por muito tempo o seu Sofocles! Lê Pope, lê Boileau, lê Cervantes. Tudo que lê a encanta, sem grande crítica, sem muita finura de percepção, sem um pensamento de síntese a que tanta leitura se subordine, mas devorada de curiosidade, e justificando o dito de Fontenelle de que basta a curiosidade para alimentar a existência.

De vez em quando, as influências de que já falámos e a superstição implacável do seu meio, congregam-se numa espécie de conspiração contra essa insaciável sêde de saber, que fatalmente há de ir minando nela a integridade e a pureza da sua fé católica, a sua ingenuìdade de menina e môça, e transformando-a numa criatura em absoluta desproporção, em mal disfarçado antagonismo com a sociedade hipócrita e beata, ignorantíssima e formalista, até ao fanatismo e à demência, em que ela pelo seu nascimento e posição será chamada mais tarde a viver.

Então, da alma fogosa e irrequieta de Leonor saem palavras quentes de viva eloqùência, defendendo o acesso dêsse mundo interior cujas visões a distraem, cujas maravilhas a enlevam, cujos prazeres puramente espirituais a trazem absorta e esquecida da vida rial tão pungente e tão lúgubremente solitária!...

Não, isso é que ela não consente que lhe roubem, essa vida fictícia que ela edificou com os seu livros, com os seus poetas, com os amigos dilectos da sua inteligência ávida e curiosa!

Nem os pedidos assustados da querida mãe, que ela envolve em carícias, em cuidados, em requintes de filial meiguice; nem os conselhos prudentes dêsse pai, a quem a sua alma se confessa com tão inefável e incansável ternura de todos os instantes, com quem o seu espírito tanto se compraz em conversar livremente, nem as cartas e as súplicas da amiga, entre tôdas preferida, a demovem do seu plano.

E êste plano é bem próprio dêsse século literário que tanto viveu pelo espírito, e que embora em Portugal não irradiasse os esplendores intelectuais que teve lá fora, ainda assim nos deu aqui alguns representantes típicos da ânsia de saber, de prescrutar, de sondar, de conhecer que é como que o seu cunho inconfundível e profundo. Consiste em estudar sempre, em estudar tudo, em fugir, pelos interesses vivos da inteligência, às ansiedades extenuantes da vida quotidiana, em esquecer o presente rial e concreto, pelas distracções violentas, que a uma imaginação tão irrequieta e tão ardente oferecia o mundo infinito da erudição, da poesia e da arte!

E depois é necessario não esquecer que Leonor de Almeida tinha no passado um fantasma sanguinolento e trágico: o cadafalso de Belêm! Tinha no presente um pesadelo lúgubre a entenebrecer-lhe a existência, sempre que por um momento a abandonava a seu estranho sonambulismo de erudita e de poetisa: o cárcere em que o pai ia consumindo hora a hora a sua virilidade florente e bela! Tinha permanentemente a pairar como nuvem lúgubre e prenhe de tempestades essa incerteza do seu destino, êsse pavor do desconhecido, que o capricho e a tirania de um homem omnipotente podia transformar em eterna clausura rigorosa e inquebrantável[29].

Por isso, segundo mil vezes o repete, o estudo é a disciplina que ela impôs ao espírito para o furtar ao desespêro, é o seu alibi artificialmente inventado, com que ela se furta às visões tenebrosas que lhe enchem de angústia a mocidade.

Muito orgulhosa, muito viva, muito rica de energia e de fôrça espontânea, tendo uma destas organizações fadadas para o movimento, para a luta, para o desdobramento magnífico de maravilhosas faculdades complexas, ela sente quanto lhe é fácil sucumbir, logo que, defrontando com o seu próprio destino, o contemple face a face, na trágica realidade que o reveste.