E por isso foge de si própria, e por isso pede ao pai com eloqùência sentida, que a deixe estudar, ler, trabalhar, para não sofrer muito, para não cair vencida a meio do seu caminho áspero e duro!

«Minha mãe diz que sempre que abre os livros que v. ex.ᵃ sabe que eu tenho, lhes encontra uma blasfémia. É certo que o seu modo de falar (sic) que é inteiramente diverso da excessiva devoção de minha mãe pode produzir êste efeito. Emfim, eu que me limito sempre ao que v. ex.ᵃˢ podem querer, procuro modelar o horror desta melancólica inacção com a lição que me é permitida. Leio tôdas as manhãs Bourdaloue ou Fénélon, e depois disto história, poemas, lógica, metafísica. São as matérias de que gosto e creio que me são permitidos os livros em que me instruo, porque nenhum dêles deixa de ser nomeado por v. ex.ᵃ.

«A história natural faz as minhas delícias, e se v. ex.ᵃ me privar disto, seguro que me priva daquilo que mais me recreia. Concluindo, estou pronta para queimar mr. Buffon e todos os que me vierem à mão dessa espécie.»

O pai que é, como já dissemos, um homem de sólido bom senso, que tem a prudência dos pais, aguçada pela inteligência do meio em que a filha terá de viver, não desanima e continua a aconselhar!...

Uma vez, por exemplo, escreve-lhe depois de lhe falar largamente de um refutador de Voltaire, e a respeito das obras dêste:

«...Nisto é que me fundo, segundo o que alcança o meu entendimento, para pretender que tu não leias muitas obras de Voltaire. A maior parte são dignas de fogo, assim como o teem sido das censuras da Igreja, e por êsse motivo até as que não teem embaraço devem ser lidas com cautela. Êste autor é tido justamente pelo mais prejudicial que tem havido há muito tempo, por ser católico, e depois disto não tanto pela sua sabedoria como pela sua grande arte de falar. Com efeito não será fácil encontrar-se outra maior, mas ao mesmo tempo nem sei que houvesse nunca mais mal empregada, porque uma grande parte das suas obras, bem se pode dizer afoitamente que compreendem quanto há de pior na escola do deismo, do materialismo, do desafôro e da mais alta patifaria. Fala em diferentes lugares como nunca falou um infiel nem hereje contra a igreja romana. Procura sempre com o maior cuidado ocultar ou destruir quanto nela houver de edificativo, e exagera quanto pode o que se lhe tem visto de débil e humano. Essas coisas que a todos devem fazer horror, são muito nocivas aos juizos novos, vivos e femininos, e sem embargo de destituídas de provas, e às vezes opostas às mais leves luzes naturais, são ditas com expressões tão engenhosas que o demónio depara, e proferidas de um modo tão deliberado que fazem muitas vezes grande impressão, principalmente em quem for mais sensível à fôrça do consoante. Mas não é só Voltaire o autor pernicioso de quem tu deves ter cuidado de fugir; há outros, tambem modernos, de que te deves igualmente precatar, e contra os quais a lição de Bourdaloue e de Fénélon não é certamente preservativo bastante.

«O teu entendimento, tambêm podes ter a certeza que não basta, porque não houve até agora nenhum que fôsse livre de tentação e de ilusão; mas alêm disto a minha conta tambêm se funda em que muito maior será o proveito literário que vocês tirem dos livros que lhe não podem preverter o coração e o juizo, do que dêsses que, por conta da moda e de um apetite cego, se arriscam a resultar-lhe grande dano. No que toca a história natural ninguêm no mundo com razão a pode condenar. É das lições mais indiferentes que pode haver, mas sôbre a de mr. Buffon, e só no que respeita a anatomia, me parece que não convêm a uma pessoa do teu estado pela liberdade filosófica que tomou, etc.»[30] Ao que Leonor, já se vê, se submete na aparência. Logo, porêm, que o conflito se declara abertamente, ela ilude a vontade dos que a cercam ou lhe resiste com pertinácia invencível, embora envolta nas formas do mais cerimonioso respeito, da mais formal submissão.

É que rialmente sem êsse forte derivativo do estudo, que é nela uma idea fixa, seria incomportável o seu destino[31].

«Em vinte e dois anos que já conto não se acha paciência nem filosofia bastante para sofrer inalterávelmente tanto dano sem a esperança do futuro.»[32] «Estes dias (o dia dos anos da mãe) em que se renovam as memoráveis ideas que temos do passado, parece-me que trazem consigo um pêso formidável.»

E esta idea de distrair-se violentamente para esquecer, aparece mil vezes sob diversas formas, mas sempre expressa com sinceridade espontânea.