O seu temperamento, diz ela, é muito melancólico. «Quando estou divertida não sinto nada; quando rezo, e sou tão miserável que me não diverte isso nada, sofro infinitamente.»

—«O que me custa é considerar a nossa infelicidade. É ver preso, oprimido, pobre e tão distante a v. ex.ᵃ, é ver como se desbaratam tôdas as ideas de felicidade que minha mãe formou, e a impossibilidade que desgraçadamente tenho para poder desempenhar os meus desejos a benefício de meus pais. Estas são as causas das montanhas que tenho sôbre o peito, e dos meus desfalecimentos.»[33]

É contra esta tristeza medonha que a sua impressionável e ardente imaginação reage com insólita vivacidade. E sem afectação nem fingimento, assim como descreve ao pai as torturas que a pungem longe dêle, tambêm lhe narra as distracções com que ilude ou anestesia o seu sofrer.

Nas noites de inverno reùnem-se no quarto de uma. Cantam, dansam, dizem versos, falam em literatura, recitam poesias italianas.

Outras vezes há no convento exames dos respectivos estudos que teem versado.

Leonor, mais erudita e sisuda, dá conta dos primeiros oito séculos da história eclesiástica. (!) Maria, aquela doce e poética Maria que Filinto Elísio crismara em Daphne, como crismara Leonor em Alcipe, é examinada em poesia e em música!

Na eleição da abadessa acodem aos outeiros de Chelas, já celebrado por ter enclausuradas as duas lindas, discretas e infelizes filhas do marquês de Alorna, os poetas do tempo, os fidalgos tafuis parentes de ambas, os belos espíritos curiosos daquela estéril quadra literária, Garção, Filinto, etc.

E Leonor, alegre e vivaz, atira-lhe da janela para o pátio, em que se êles atropelam curiosos e ávidos de vê-las, os motes alambicados, os conceitos preciosos, ao estilo do tempo.

—Alcipe, venha mote!—clamam de baixo os vates freiráticos.

E Alcipe, e a irmã Daphne e a companheira Amaryllis (!) respondem infatigáveis, e as décimas chovem, entrelaçam-se os acrósticos, e o soneto desdobra-se monótono e falsamente majestoso, com o seu remate, que pretende ser conceituoso e que é banal, como tôda essa poesia dos outeiros e saraus poéticos do nosso século XVIII, tão vazio de pensamento e tão pobre de forma.