Um dos encantos com que Alcipe deslumbra o seu auditório consiste na memória prodigiosa que ela possue e que manifesta, repetindo a décima galanteadora ou o alambicado soneto, mal o seu autor acaba de improvisá-lo.

Há uma vibração de intensa alegria na descrição incorrecta, desordenada, sem relêvo plástico, mas cheia de vida, que Leonor faz ao pai dêsses dias de agitação, de festa, de comoção literária.

Vê-se que ela foi feita para brilhar, para gozar acremente e violentamente da vida,—não da vida feita pelos obscuros e ásperos deveres quotidianos, que dessa triunfam sómente os temperamentos contrários ao de Leonor de Almeida: os que aceitam as tarefas monótonas com resignação inquebrantável e o pêso do destino adverso com passiva tranqùilidade, os que sabem enfastiar-se com coragem e aborrecer-se com fleugma heróica;—mas da outra, da mais brilhante, que se compõe de dias felizes e noites vitoriosas, da que embriaga o espírito, da que excita perigosamente os sentidos, da que exalta em agudos espasmos a imaginação e a fantasia...

Leonor não tem, infelizmente para ela, os salões esplêndidos de uma côrte artística e literária como aqueles em que brilharam Vitória Colona ou Margarida de Navarra, madame de Lafayete ou a marquesa de Sévigné...

Não tem um centro de polida e graciosa conversação em que se toquem ao de leve, polvilhando-os de oiro, os assuntos mais fúteis e os mais áridos, os mais técnicos e os mais gerais, como aquele que, no seu tempo, em Paris se substituía à própria côrte de Versailles, e acabava por ofuscá-la absolutamente, aquele em que a parisiense, sua contemporânea, se vingava com brilho incomparável da longa obscuridade a que a mulher fôra condenada, no qual ela surgia envolvida nos mais subtis encantos da inteligência, e nas mais deslumbradoras pompas da beleza e da elegância, rainha voluptuosa de um mundo que a arte iluminava com a sua luz azul, que a literatura impregnava do seu capitoso encanto, e onde até a filosofia se fazia ligeira, acessível e risonha para que ela a assimilasse, a propagasse, a compreendesse e lhe rendesse culto.[34]

E emquanto lá fora a apoteose da mulher se celebra magnificamente, ostentosamente, no meio do requintado luxo de uma época de sensualismo espiritualizado—é muito obscuramente, no ridículo outeiro de um convento do extremo da península, que esta criatura, feita para brilhar na mais ampla e mais elevada esfera, se deleita em mostrar o seu inquieto espírito, borboleta embriagada pelo néctar de uma falsa poesia.

¿Mas que importa o scenário, se ela o transfigurara com a sua imaginação de chama? ¿Se ela o enfeita com tôdas as pompas de seu espírito de sonhadora? ¿Se ela consegue ali conhecer o intenso gôzo de ser admirada, de todos o mais forte, o mais entontecedor para certos organismos de excepção?

Numa das oito noites consagradas à festa da eleição Leonor representa com Maria de Almeida, sua irmã, algumas scenas da tragédia de Racine Atália. Atália é Maria de Almeida. Eis como ela a descreve:

—«A mana ficou linda. Estava de donaire[35] com um vestido de uma espécie de velilho que se usa agora (porque a pragmática vai-se profanando fortemente), com o fundo côr de rosa e prata, com listas negras para fazer a rainha viúva, um véu do tal velilho branco e prata, penteadas de plumas côr de rosa e negras.

«Eu ia vestida de um velilho azul claro e prata, com listas azul ferrete, que é a côr que me fica melhor. O meu vestido foi copiado de uma estampa do sumo sacerdote, e tinha barbas que me chegavam à cintura.»[36]