Depois desta grave tragédia racineana, houve ainda um intermédio jocoso em que Leonor reaparece vestida de frialeira[37], com gibão côr de rosa e prata, mantéu verde e saia arregaçada, côr de rosa, branca, côr de fogo e prata[38].

No baile que se seguiu à representação, tôdas as noviças de Chelas queriam dansar com as duas irmãs. É que elas são de-veras lindas e deliciosas de espírito, graça, gentileza e veia cómica. Leonor com o seu belo rosto altivo, de uma correcção que não exclue o mimo, a bôca finamente e espirituosamente recortada numa linha rubra e sinuosa, o cabelo opulentíssimo que se levanta nos voluptuosos penteados do tempo, ou que se espraia em ondas pelas espáduas esculturais, inspirando à irmã versos entusiastas[39]; Maria, mais pálida, mais melancólica, de olhar estranho e doce, e cuja voz celebrada por Filinto[40] é a delícia dos serões de Chelas, como será mais tarde a delícia dos saraus aristocráticos de Lisboa, onde ela aparecerá envolta no misterioso véu de etérea graça com que se cobrem aquelas que a morte tem de colher em flor!...


No dia dos anos do pai, mesmo preso e distante como está, da mãe doente e triste, ou de qualquer das duas irmãs, há festa em Chelas para obedecer ao tradicional costume antigo, cuja memória não deve quebrar-se.

A iniciativa engenhosa de Leonor é que faz tudo. De dia vai ela para a cozinha, arregaça as mangas, põe a nú os seus braços de deusa de uma plástica impecável e de uma brancura lirial, e rola as finas massas, e bate as alvas espumas, e manipula os saborosos cozinhados e faz ela própria o jantar com a elegante majestade com que lavavam roupa as princesas de Homero. Depois, findos os trabalhos grosseiros do dia, vestem ambas belos vestidos de setim côr de laranja ou côr de rosa que elas próprias cortaram e fizeram, de que inventaram ou executaram os bordados ou as rendas, e convidando alguma amiga preferida, ou mesmo descendo ao locutório e recebendo algum amigo dilecto, partilham com êles do seu pequenino banquete. Á noite dansam, cantam, tocam, riem até que o uso conventual as obrigue ao sossêgo da noite.

Quanta vitalidade, que poderoso optimismo bebido nas suas belas e pacificadoras leituras, as filhas de Alorna não manifestam nesta reacção contra a injusta fortuna e o bárbaro destino!

Não são lânguidas heroínas de um romantismo bastardo, são duas organizações perfeitas, de pronta e viva sensibilidade, tão acessíveis à dor como ao prazer, tão capazes de sofrerem com violência como de gozarem com arrebatamento.

No meio da sua miséria, das suas iniqùidades, da tirania negra que pesava sôbre as almas e sôbre os corpos, da superstição que nublava os horizontes, era optimista e forte o século XVIII; e os seus filhos não teriam obrado tão altas maravilhas, se a vontade fôsse nêles amolecida e doente como nos seus descendentes miseráveis! A sensiblerie começava, é certo, a ser moda em França, e a formular-se em livros, em tratados filosóficos, em tiradas trágicas, em quadros simbólicos, etc., etc. Mas a emotividade vibrante, estranha doença moderna, que nos faz tão fracos, tão susceptíveis, de um melindre tão mórbido ante as próprias dores e as alheias, não existia ainda. Foi o produto de uma lenta evolução que então começava. Os defeitos grandíssimos e as grandíssimas qualidades de que o passado se reveste aos nossos olhos, vem justamente dessa ausência quási absoluta de sentimentalismo e de ternura.

É isto que o faz ao mesmo tempo duro como o granito e resistente e forte como êle. Despreza a vida humana, é verdade; mas não se enternece diante das suas próprias dores, o que é um grande bem e quási que uma virtude.

Ás grades de Chelas acodem os amigos mais queridos da família de Alorna. Garção é um dêles[41], e Filinto Elísio é outro. Nas obras do erudito escritor e nas da futura Marquesa de Alorna encontram-se as poesias que entre si trocavam os dois. Uma vez doente, e julgando-se perto da morte, Leonor consagra a