Francisco Manuel do Nascimento um soneto, que ela apelida ao terminá-lo:
Do rouco cisne a voz talvez extrema[42].
É Filinto quem lhe pôs o nome poético de Alcipe que ela nunca mais deixou de usar nos seus versos. A amiga mais querida, é, como já dissemos, a condessa de Vimieiro, D. Tereza de Melo Breiner, a autora da Osmia, e irmã de Pedro de Melo Breiner, tambêm grande amigo das enclausuradas senhoras. Tamagnini, o conde dos Arcos, Pedro Inácio Quintela, administrador da casa de Alorna, Frei Alexandre da Silva, depois bispo de Malaca, eis os outros amigos a quem, na truncada mas preciosa correspondência que a Marquesa de Fronteira nos confiou, Leonor de Almeida se refere com mais freqùência.
Não é natural que fôssem muito mais numerosos os seus visitantes do tempo em que estar fora da privança de el-rei e do primeiro ministro constituía um crime, quanto mais viver sob o permanente castigo que ambos teimavam em infligir a esta família desventurada.
Os dezoito anos de cativeiro de Leonor não teem, pois, peripécias interessantes ou dramáticas. Os únicos acontecimentos desta existência conventual, monótona e triste, é dentro do espírito da nossa heroína que temos de os procurar. Teem um interêsse de psicologia, não teem nenhum outro. O corpo dela, preso dentro das grades de um convento, não pode sequer mover-se para alcançar a saúde que naquele meio asfixiante a ia de todo abandonando.[43]
Mas nunca o seu espírito repousa, pois que mil problemas das mais diversas ordens e procedências se movem e agitam dentro dêle.
Um dêsses problemas, o mais sério para uma consciência sincera e lúcida daquela época, era o religioso. Leonor de Almeida que, com o volver dos anos, se fêz estreitamente devota e intransigentemente aristocrática, era áquele tempo ledora assídua da enciclopédia, das obras de Alembert, Diderot, Helvetius, Rousseau, etc., etc. Muita vez ilude e torneia a dificuldade de conciliar esta leitura com as ordens expressas que tem do pai, apresentando só um lado das doutrinas em que se embebe, ou um aspecto dos livros que quotidianamente folheia, mas é de ver que num espírito de mulher, acessível às influências externas—e sempre espêlho que reflecte e não luz que irradia—estas leituras aturadas haviam de produzir o seu efeito natural.
Nesta fase activa e interessante da sua vida espiritual, Leonor partilha com muitos espíritos do seu século, educados na tradição católica, uma doce e simpática ilusão.
Ela pretende conciliar o racionalismo filosófico com a religião bebida na infância. Quer amar um Deus corrigido pela razão, uma religião mondada de superstição e de abusos, uma Bíblia que Voltaire houvesse préviamente aprovado, um evangelho em que o Vicaire Savoyard não encontrasse crítica alguma que apontar.
A sã filosofia, que estava então no seu fulgurante início, patrocinada pelos reis, pelos príncipes, pelos bispos e pelos grandes, não fôra ainda levada ao seu têrmo lógico por Saint-Just e Robespierre... A velha sociedade julgava possível subsistir, inteira, hierárquica, em pleno gôzo dos seus preconceitos, riquezas, privilégios e excepções, desmoronados ao vento da ironia voltaireana, os alicerces seculares em que assentava o seu domínio positivo.