Não admira que uma criança inteligente e sonhadora, tendo tido ocasião de perceber a baixeza moral a que a superstição levara êste país, tivesse a mesma ilusão que então deslumbrava tantos entendimentos luminosos...

Leonor sentia-se permanentemente sob a censura disfarçada ou clara dos que mais íntimamente privavam com ela. O próprio pai, esclarecido como era, sentia mêdo ao perceber os assomos de independência espiritual, que ela deixava transparecer nos conceitos, e naturalmente derivava de cada uma das suas leituras.

Vejâmos as cartas com que Leonor respondia às observações prudentes e cautelosas dêste amigo do seu coração, com o seu espírito melhor se entendia.

«Eu li muitas vezes as Reflexões de mr. de Bossuet, li parte da obra de l’Abbadie, que me fatigou, mas que tornarei a ler com mais gôsto. Fora disto tenho lido quanto achei a favor da religião, com desejo de fortificar a doutrina com que me criaram. Agora há muito tempo que me privo dessas leituras, de propósito, julgando que uma coisa superior a tôdas as razões humanas escusa delas; e tratando de nutrir o meu coração de virtudes que teem por fundamento esta crença, cultivo o entendimento com os conhecimentos próprios para um génio curioso, sem esperar daqui mais fruto que o de livrar-me da ociosidade e arruinar de alguma sorte a fôrça da melancolia.

«Jámais entrou nos motivos da minha aplicação algum espírito de singularidade e uma vaidade gentílica como v. ex.ᵃ lhe chama, incompatível com a modéstia de que desejo animar as minhas acções. Gosto de saber quanto cabe nas minhas fôrças, mas antes quero ser ignorante do que indócil.»[44]

E noutra carta sôbre o mesmo assunto a que volta freqùentemente, revelando bem a importância que êle tem para o marquês de Alorna, solícito conselheiro de sua filha, e talvez, como é natural do seu sexo, do seu tempo e da sua raça, um pouco aterrado ante uma superioridade feminina, a que êle não percebe aplicação prática de espécie alguma:

«Sôbre Voltaire não acho que dizer, porque v. ex.ᵃ entende da matéria melhor do que eu. Sôbre a controvérsia sou proìbida a falar por todos os princípios, e até devo a S. Paulo a obrigação de me escusar o meu parecer absolutamente. Contudo êle é reputado como um grande filósofo e como o assombro dêste século. Eu me lastimo dos seus erros, mas não posso deixar de confessar a v. ex.ᵃ que me vieram as lágrimas aos olhos quando vi que v. ex.ᵃ lhe dava sentença de queima! De que servem homens queimados, meu querido pai? Por ventura reconhecem êles a verdade na fogueira? Não é Deus só quem deve pôr têrmo aos nossos dias? Se Deus sofre os homens miseráveis sôbre a terra, que direito teem os homens para os não sofrer? Eu conheço que v. ex.ᵃ tem muita virtude e muito juizo para decidir bem, mas eu que son mulher, com o coração muito pequeno, quando se fala em matar sempre me aflijo pelo sentenciado, seja quem for. Não está mais na minha mão!

«Deus terá piedade da minha fraqueza se não é boa, em conseqùência do preceito—de amar o próximo como a mim mesma;—queira Deus que eu não diga alguma tolice que desagrade a v. ex.ᵃ, mas copiei o meu sentimento, e disfarçá-lo parecer-me ia pior».[45]

Êste trecho é de uma incomparável nobreza e até de uma simplicidade eloqùente e sentida, bem rara no estilo de Leonor de Almeida e da geração sua contemporânea em Portugal. Bastava êle para justificar o que no anterior capítulo escrevemos sôbre a concepção errada e cruel que acêrca da justiça havia naquele tempo entre nós, até nos espíritos mais cultos.

O marquês de Alorna tem direito a ser contado entre um dêles, e no entanto, de ânimo leve, numa carta à filha escrita do cárcere, onde agonizou dezoito anos, vítima da prepotência régia e da justiça da lei, vê-se que êle condena à pena de queima êsse Voltaire que defendeu Calas, e que fêz ouvir a sua voz eloqùente e viva, a sua voz que tinha asas e asas de fogo, em prol de tôdas as vítimas da iniqùidade humana, da iniqùidade social, da iniqùidade religiosa!