Tão pouco preço se dava então à vida do homem e ao seu sofrimento. Tão impiedosa e dura era a alma em que a superstição imprimira a sua negra influência, e que a tirania criara aos seus peitos de fera! The milk of human kindness, êsse leite da bondade humana, de que fala o poeta inglês, não corria certamente nas veias dos nossos maiores. Foi êste século que melhor do que tudo o sentiu, o criou, o fêz jorrar em mananciais permanentes da alma da humanidade, amolecida por tantas dores!... É bem verdade, e já aqui mesmo o repetimos, que pagámos com uma porção de energia êsse acrescentamento das nossas faculdades afectivas; mas abençoado o contrato que nos fêz bons, muito embora nos deixasse mais fracos...
A questão religiosa vê-se que é, a par de outras que teem relação com a sua superioridade literária, a origem de maiores tormentos para o espírito de Leonor de Almeida. É tão curiosa esta fase da sua vida íntima, que não resistimos a transcrever algumas das cartas que mais a esclarecem:
«Vou-me restabelecendo com os esforços da medicina e da filosofia; uma sem outra me seriam inúteis. Leio moderadamente, porque assim o preciso para viver, e apenas largo os livros não acho em redor de mim senão contradições que me tiranizam. A verdade e v. ex.ᵃ, que são os objectos que me obrigam a estudar, são quem me consola das perdas que faço, talvez, na opinião dos outros. A maior parte das pessoas com quem falo estão sempre de parecer contrário ao meu, e aquelas que concordam comigo ou não m’o confessam ou são tambêm vítimas dos caprichos dos outros. As sciências são um nome vago, insignificante, e elas em si mesmas são reputadas como um meio de ostentação; os melhores entendem que elas servem como um meio para saber argumentar, e não lhe vêem o fim com que eu as olho, de nos procurarem a felicidade e regularem os costumes. Ontem tive vários argumentos com o confessor de minha mãe, que sendo homem de infinito propósito e bom coração, está entestado das ideas vulgares a respeito dos filósofos modernos, e não admite absolutamente nenhum princípio honesto na aplicação fora, do que serve únicamente para a salvação eterna. Tudo inutiliza. Chama à poesia sciência de pagãos, à matemática sciência de loucos, à física meio de estabelecer nova religião; emfim prognostica que daqui a dez anos seguramente haverá alguma seita ou uma total transtornação do cristianismo. Esforcei-me inútilmente para provar que os filósofos, ainda que erravam em muita cousa, não eram, contudo, incompatíveis com o cristianismo sublime. E que a natureza que êles profundavam, era aquela obra magnífica, que mais que tôdas provava a existência de Deus, que êles olhavam com respeito as suas leis, de que Deus era o autor, e que Jesus Cristo não veio senão aperfeiçoar. Inexorável a tôdas as conseqùências que eu tirava dêstes princípios tão verdadeiros, recorreu ao ordinário meio dos que teem sistema e não teem razão, encheu de nomes injuriosos os escritores mais célebres dêste século e às injurias e gestos apostólicos deu o valor de convicções. Pretendia tirar argumentos contra Newton e outros herejes da sua irreligião, e nunca pôde admitir o princípio de que em matéria scientífica vale mais o dito de um sábio hereje, do que o de um santo ignorante.
«Eis aqui os homens de mais juizo e de maiores luzes que por cá temos!
«Eu que não quero, nem levemente, afastar-me da sujeição que devo à Igreja e às ideas de meus pais, quero que v. ex.ᵃ me diga o que crê a respeito dêstes pontos, em que os argumentos caíram, e que minha mãe não pode decidir, porque não estudou nem ao menos leu nada sôbre estas matérias. Sendo a minha razão livre como tôdas, a natureza e a ternura me persuadem que só admita o que meu pai admitir.
«Disse eu que a conquista da América tinha sido um atentado contra a espécie humana, porque a conversão daqueles povos devia ser menos obra de cães de fila, espada e artilharia espanhola, que da razão e da brandura; que Maomet persuadira a mentira com ferro e fogo, e Jesus Cristo a verdade por meio da sua cruz e da missão dos seus apóstolos; que não havia direito nenhum que permitisse tirarem-se as terras a seus próprios donos, para se darem aos tiranos que as conquistaram. E que a bula em que se fazia aos americanos a honra de os admitir na espécie humana era escusada, porque êles antes disso já eram homens. Diziam-me que devo crer que tudo isso foram obras meritórias.
«Os homens que se sacrificam por princípios de religião fazem-me lembrar os sacrifícios de Osiris, de Saturno, de Hércules, de Marte, e tanto fanatismo me parece uma coisa como outra.
«Não me absolveu o confessor porque eu lhe disse isto, e o de minha mãe, a quem fui falar para me dizer os termos em que havia de ficar para me absolverem, disse mil arengas, das quais vim a coligir que êle, no fundo, estava nos meus princípios, e que o não queria confessar para o não levarem ao santo ofício.
«Eu, que não tenho mêdo do santo ofício, como não tenho mêdo da sem-razão e dos erros, quero saber se hei de mudar de opinião, porque o confessor me reservou a absolvição até minha total emenda. O pecado que eu confessava era o de ter dito diante de pessoas menos aplicadas o meu sentimento nestas matérias.
«Lembrando-me ao mesmo tempo o texto de S. Paulo, em que nos recomenda não escandalizar os fracos; esta imprudência me atraíu tôda esta arenga que me tem aborrecido, porque quanto mais medito menos saída lhe acho. Os confessores são quási todos ignorantes e gente a quem nunca exporei as minhas dúvidas.