«Torquemada e outros inquisidores são no meu conceito Nero e Calígula, Cromwell[46] e outros monstros dêstes.
«Isto dizem que é pecado; será, mas é de razão e de piedade! V. ex.ᵃ é meu pai, tem mais sciência que os frades, e tem-me mais amor, para desejar o meu verdadeiro bem. Prouvera a Deus que me podesse confessar, escusava-me o trabalho de aturar estes piedosos preocupados, ignorantes e fanat... êste nome é proìbido. Perdôe-me v. ex.ᵃ enfadá-lo com estas impertinências, mas só com v. ex.ᵃ é que me entendo, meu querido pai.
«Disse eu que todos os filósofos assentaram que a terra se movia; dizem-me que eu disse uma blasfémia, porque Copernico foi condenado e Galileu obrigado a desdizer-se.
«Disse que o clima era origem da côr negra nos homens, e que a povoação da América era um mistério incompreensível, e provei estas duas proposições. Responderam-me que a maldição de Cham e não viagens imaginárias eram a solução. Tudo isto é ridículo para quem tem lido como eu, e o partido de calar-me que eu tomo há muito tempo, se basta para tranqùilizar-me aparentemente, consterna-me porque receio que minha mãe apreenda alguma coisa que a aflija, e assim tome v. ex.ᵃ o trabalho de a tranqùilizar sôbre os meus princípios, e de dizer o que quer que eu faça. Tôdas estas coisas compadeço eu com a pureza do cristianismo. Eu olho para o evangelho e para os apóstolos como meus mestres, tudo quanto os contradiz não admito, e a Igreja nossa mãe a respeito e a olho com a mais submissa veneração. Contudo os homens são sempre homens, e assim os considero. Se eu podesse escrever quanto me lembra, v. ex.ᵃ veria que abomino as questões, e que a docilidade é o que mais me agrada. Porêm, cada um dá diversa interpretação aos termos em que argumento, e quando digo razão, verdade, amor da ordem, entendem-me sistema, ensino e transtornação; neste têrmo sofrerei eternamente um martírio quási incomportável...»[47]
Esta carta dá-nos em flagrante realidade a luta que nesse tempo se tratava em muitas almas piedosas e elevadas, que compreendendo a pureza inefável do cristianismo, e vendo-o interpretado por um sacerdócio ou fanático até à loucura, ou ignorante até à sordidez boçal, não sabiam conciliar contradições tão violentas como afligidoras.
Leonor de Almeida não conta senão os combates de consciência de uma pobre mulher isolada, talvez um pouco puérilmente vaidosa da sua incompleta sciência, bebida em leituras truncadas, sem método e sem guia; mas que eloqùência sublime tem essa luta obscura quando a relacionamos com tudo que a consciência humana tem sofrido para se resgatar do cativeiro em que jazeu presa longos séculos! Com que piedosa ternura, nós as almas libertas dêste tempo, devemos contemplar os que padeceram suplícios sem conto para que a verdade relativa que hoje é nossa posse atingisse emfim a sua alforria e o seu império! Quantos mártires expiaram em fogueiras, em húmidas masmorras infectas, em morticínios crudelíssimos, em hecatombes abomináveis, a aspiração que tiveram à liberdade da sua consciência, à integridade do seu pensamento, à expansão inteira da sua independência mental! E os que tinham nascido nobres e francos e sinceros, e se corromperam e degradaram rastejando na sombra corrupta da hipocrisia e da mentira, porque lhes faltava a heroicidade com que se afronta o martírio, ou porque os amolecia a sensibilidade estranha dos que sentem a própria vida identificada a outras vidas?!
E os que sofreram como Leonor a luta ingente, a luta dolorosa entre as doutrinas bebidas no leite maternal, sugeridas com infinito amor por lábios de mel e olhos de inefável brandura, e sentiram irromper da lição dos livros ou da observação dos factos, ou da lógica triunfante do espírito reflectido e lúcido, a verdade que não pode ser nem desmentida nem dominada, a verdade que baptiza como água lustral, que queima como o fogo do céu, que pulveriza como raio destruindo os edifícios erguidos pelos sofismas da hipocrisia ou pela imaginação ignara das multidões?!
É grande, é imensa a dívida que contraímos com êsses que sofreram para que nós conhecêssemos a tranqùila beatitude e a serêna alegria da consciência libertada!
E não são pueris as queixas de Leonor logo que nos lembrarmos que para pensar livremente, tudo que então valia um pouco em Portugal ou teve de fugir, ou teve de degradar-se pela mentira!
Filinto, Ribeiro Sanches, Garção, Bocage, José Anastácio da Cunha, e tantos e tantos outros lá estão a provar que o receio do confessor pusilâmine não era uma desculpa vã!