E no entanto devemos confessar que quem estava na lógica da sua crença eram os que discutiam acremente com a juvenil livre-pensadora de Chelas!
Não havia conciliação possível entre o velho e o novo credo.
Não se tratava do evangelho livremente comentado pelo espírito individual, tratava-se da Igreja, poder político e poder social, ao mesmo tempo que era poder religioso, e cujos dogmas definidos, rigorosamente formulados, por um clero que, depositário da verdade, a tinha traído em benefício dos seus interesses, formava hoje um corpo que ou havia de triunfar inteiro ou inteiro caír.
O confessor da marquesa de Alorna, profetizando para dali a alguns anos o cataclismo supremo em que a velha sociedade se afundasse, revelava um tino, uma previdência e uma penetração bem raras no clero português daquela época, e muito superior, em todo o caso, à filosofia optimista e à incoerência anti-católica da sua contendora juvenil.
Com certeza que a esta carta comovedora, escrita ao pai, e que é como a confissão palpitante de uma alma sincera, e que busca entre agonias a verdade e a luz, o marquês, mais lógico consigo próprio e com a educação que lhe tinha modelado e formado a inteligência, respondeu pondo-se francamente do lado da autoridade e da tradição contra a indisciplina da filha e a vaidade gentílica do seu entendimento.
Mas não se limitou a esta escaramuça entre ela e os dois confessores a inquietação da consciência de Leonor.
A amiga Tereza de Melo Breiner escreveu-lhe, lamentando a sua índocilidade aos conselhos da Igreja, e mais de uma vez ou a chistosa ironia ou a grave reflexão de Leonor dá lugar a conflitos entre ela e a mãe, ou a amiga, ou os frades que a cercam.
A erudita reclusa conhece os textos dos doutores, as opiniões de S. Paulo, de Santo Agostinho, de Tertuliano, as conclusões dos concílios, as matérias sôbre que versam as diversas bulas, e confunde não raro os seus adversários, mostrando-se muito mais instruída do que êles nos assuntos que debatem em perpétuas controvérsias.
Mais uma carta sôbre o mesmo assunto, e com respeito à condessa do Vimeiro: «Já vejo que v. ex.ᵃ tem curiosidade sôbre o que diz Tirce[48] a respeito dos filósofos. Na realidade, esta estimável amiga, o único defeito que tem é a tenacidade em certos pontos, e persuadida uma vez de que a filosofia era o móvel das minhas acções, independente de outros princípios mais sagrados, é impossível arrancar-lhe dos miolos esta preocupação. Na carta que há mais tempo me escreveu e a que deu origem a graça de D. Alexandre[49], discutia largamente êsses pontos, e eu dei a resposta que então me pareceu razoável e digna de mim e dela... A consideração que eu faço dos inferiores, o desprêzo das acções más cometidas por fidalgos, o ódio à injustiça e a contradição que isto tem com o sistema de certa fidalguia ridícula que governa o mundo, são pontos críticos, e quem vê por outro modo as coisas não me dá as desculpas, nem a razão que eu mereço. Tirce (condessa de Vimeiro), que é uma santa, parece-lhe muito a propósito que tôdas as coisas vão adubadas de frases místicas,—eu que amo a religião e que a respeito muito para introduzi-la a torto e a direito, e que tudo nesta parte que pode parecer uma afectação me aborrece muito, emquanto tenho razão não cito livros santos. Como não sou hereje, nem tenho tentações contra a fé, escuso de fazer a minha protestação a cada instante, contentando-me com cativar o coração com as verdades do evangelho sem dar nisso contas a ninguêm. Agradam-me as coisas como são e prescindo de exterioridades equívocas. Tirce tem tido por isto uma grande inquietação, querendo quási para seu sossêgo, que eu lhe reze o credo em cada carta. O meu génio já v. ex.ᵃ o conhece e não é para ceder senão à ternura. A razão alheia é como a minha, e por isso não me desvio do que julgo bem feito por motivo nenhum. Escrevi a primeira carta na qual, sem abaixar o meu estilo a condescendências aborrecíveis, cuidei de explicar-me segundo o sistema da nossa santa religião, nos termos mais simples que me foi possível, e na boa intenção de tranqùilizar a minha querida amiga e de salvar-me da idea injuriosa que talvez ela tenha da minha submissão aos filósofos. Falei com uma pessoa instruída, e desafio S. Paulo para que ache na minha carta uma palavra condenável. Que efeito teve? Nenhum.
«Ficou Tirce como dantes, porêm calada. Torna outra vez a entender comigo, e verá v. ex.ᵃ pelas minhas cartas com que fundamento. Eu quási que estou tomando o partido de me calar. Na última carta dizia coisas muito mais cristãs que em nenhuma das que remeto a v. ex.ᵃ, mas estou certa que não há de bastar cousa nenhuma.»