Mas não é sómente a sua leitura dos filósofos e enciclopedistas, de Alembert, a quem ela chama o carácter mais amável[50], de Voltaire, que ela considera o maior dos homens do século[51], de Rousseau, o genio filósofo o mais raro e o mais estranho[52], de Diderot, menos encantador que de Alembert, mas tão estimável como êle[53]; não é sómente a sua intimidade com os grandes escritores do tempo que a põe em antagonismo permanente com o seu meio.
É tambêm na sua qualidade de poetisa, de mulher de letras, bicho raro para a época, que de todo se esquecera ou de todo ignorava que tivesse havido no século XVI uma floração encantadora de latinistas, de eruditas e de literatas em tôrno da poética figura da princesa D. Maria, nessa côrte de D. Manoel, que foi umas das mais brilhantes da Renascença. O talento feminino foi sempre para o homem de tôdas as épocas e de tôdas as nações uma anomalia repugnante, uma monstruosidade inquietadora.
O talento, que é quási sempre o exagêro esplêndido de uma faculdade da imaginação ou de uma espécie da sensibilidade, não se contenta fácilmente com a obscuridade da vida doméstica.
Na transformação completa que a democracia imprimiu à sociedade moderna, o talento da mulher, se é de escritora ou de artista, pode tomar a forma especial de um produto cotado no mercado como outro qualquer, e sendo assim hoje, o homem inteligente e ilustrado, se não aplaude a mulher que trabalha pelo cérebro, chega ao menos a compreender que o tolher-lhe o direito de trabalhar seria um criminoso abuso da sua fôrça.
Na Inglaterra contemporânea centenas de mulheres escampam à miséria e à perdição pelo trabalho. São romancistas, são jornalistas, escrevem nas Revistas, colaboram em publicações especiais, publicam relações de viagens, monagrafias de sciência ou de arte, pequenos tratados de economia doméstica, etc. A França do século XIX conta entre os seus mais altos espíritos e mais robustos escritores duas mulheres, uma das quais ganhou com a pena manejada pela sua pequena mão nervosa a quantia modesta, mas apetecível de um milhão!
Basta para emmudecer a vaidosa prosápia de qualquer burguês desdenhoso da actualidade esta cifra, e a apresentação daqueles factos incontestáveis.
Mas o Portugal do século XVIII, que a mão poderosa de Pombal tentava em vão arrancar ao mais abjecto obscurantismo, à mais completa inanidade mental, e que apenas sob êste valente impulso dava alguns sinais de galvanizada energia nas indústrias práticas, nas sciências positivas, o Portugal sem poesia, sem arte, sem elegância mundana, o Portugal dos fidalgos analfabetos e arruaceiros, dos gordos capelães hipócritas e devassos, dos parasitas, dos bobos, das velhas condessas beatas que expiavam a banhos de água benta os pecados galantes da mocidade, o Portugal em que soou o riso de Tolentino degradante e cómico, de que Filinto fugiu assombrado, em que Bocage não achou lugar, e onde êle chorou e blasfemou até morrer de libertinagem, de tédio e de agonia, o Portugal asfixiante e meio bárbaro do tempo não tinha lugar que oferecesse a uma mulher escritora, a uma mulher de talento superior e de alto e desanuviado critério.
O seu meio ou havia de escorraçá-la a golpes de grosseiro escárneo, ou havia de imporse-lhe, calando-a, humilhando-a, vencendo-a.
Percebiam isto muitos dos que a cercavam. Percebia-o a própria Leonor, e como é seu hábito, hábito encantador e que enternece como uma flor azul, nascida entre as fendas de uma agreste rocha—não é a doçura a faculdade predominante dêste temperamento—é ao pai que ela confessa mais êste conflito do seu destino.
Ouçamos o que numa carta lhe diz: