«Depois de ter estudado, como v. ex.ᵃ sabe e com o fim único da minha felicidade, formei um pequeno plano para as minhas acções, que sendo conforme com as intenções dos meus queridos pais, eu podesse contentar-me tambêm e praticá-lo livremente. Meditei as minhas obrigações a respeito de Deus, da sociedade, de mim mesma; avaliei quanto me era possível, o estado do mundo, e principalmente o da minha terra, e resultou daqui assentar fixamente que eu não podia ter uma hora de sossêgo, se me lembrasse um só dia de escrever para o público. Que a êste só serviam verdades disfarçadas ou mentiras positivas, que a liberdade (ídolo do meu entendimento) seria uma vítima infeliz das máximas estranhas da minha terra, e que se queria ter fortuna com ela servisse o jugo da opinião pôsto pelas tôlas de idade, pelas ignorantes de título, e por outros indivíduos semelhantes, a que eu chamo em segrêdo baixa plebe.

«Cuidei de distinguir bastantemente o carácter das pessoas com quem falo, e com quem estabeleço muito acauteladamente as minhas relações literárias, debaixo da inspecção adorável da minha querida mãe. Assentei que o número havia de ser muito pequeno e com efeito o é. Mas fixo êste, tudo aquilo que não contradiz a idea que eu tenho da virtude e da felicidade, que são para mim o mesmo, livremente o pratico e com isso me recreio. Assentando fixamente que os meus versos não encontram o parecer de nenhuma das pessoas a quem os mostro, de quem quero o prémio, ora os dirijo a um, ora a outro dos três amigos nossos que me entendem; e gosto de o fazer assim, porque me agradam os ingleses bons e os alemães, onde vejo êste método estabelecido, como um meio para facilitar e acender mais a imaginação. O gôsto da moralidade tambêm me persuade a isto, porque fácilmente se oferecem reflexões, supondo que alguem me escuta do que falando só. Parece-me alêm disto que o meu trabalho não é uma honra, nem uma lisonja que faço áqueles homens, mas sómente um sinal da minha gratidão pelo que êles contribuem para o meu adiantamento com as suas conversações, com os seus livros, e com a emulação que me dão com as suas obras. Nenhum dêles estima essas coisas vãs que só teem valor entre os que sabem pouco. Filinto é um carácter original para a nossa terra. Conhece bem que a felicidade está em si, que lhe não vem dar honras que lhe fazem os fidalgos, não os distingue senão pela virtude ou pelos talentos. É um filósofo incapaz de sujeitar-se a lisonjas, nem de gabar-se das que recebe. V. ex.ᵃ o conhecerá, e verá que dista muito da idea que v. ex.ᵃ forma. Neste têrmo, achando, quási de portas a dentro, quanto era necessário para me ocupar agradávelmente para aqui é que escrevo, não quero que me leia ninguêm que possa reparar no que digo, porque quero falar o que entendo e o que me inspiram a razão e a virtude.»[54]

Descontando no que a fraseologia do tempo tem de especial, de affectado—e é isto justamente que imprime data—vê-se que os sentimentos de Leonor estão a par do que mais elevado e nobre havia no século. Não aceita da crença em que a educaram senão a puríssima moral e a requintada essência evangélica; dos preconceitos sociais que bebeu com o leite destaca lúcidamente tudo que há nêles de exagerado e iníquo.

Nós que fomos educados sob um regímen absolutamente oposto ao que naquela época reinava, só pelo raciocínio conseguiremos dar um verdadeiro aprêço a esta independência de um espírito de mulher, que a tirania das ideas e a dos costumes não logrou acobardar, nem vencer.

De uma das fantasias mais simpáticas do romanesco espírito de Leonor encontramos na correspondência inédita vários documentos.

Imaginou dirigir-se a Luís XV, a Voltaire, a diversos personagens influentes da côrte de França e interessá-los pela causa de seu pai. Não podemos afirmar que as cartas atingissem o seu destino, ou mesmo que elas chegassem a ser enviadas áqueles a quem são dirigidas, mas não resistimos à tentação de transcrever alguns trechos dos rascunhos encontrados. Aqui estão em primeiro lugar passagens da carta dirigida a Luís XV. O francês é defeituoso. Hoje, qualquer rapariga educada pelos novos métodos, escrevia mais correctamente. Mas que entusiasmo pelos seus essas cartas traduzem!

«Sire. Avec le plus profond respect, avec la plus douce espérance dans ces vertus qui ont acquis à Votre Magesté le glorieux titre de Bien aimé si propre à faire la douce attente des malheureux, je viens oh grand roi, faire retentir mes plaints devant votre trône auguste...

«Une malheureuse fille de vingt deux ans, vous demande, Sire, avec des larmes, la protection pour un père et une famille que pendant l’espace de quatorze ans ont épuisé tout l’horreur du destin le plus rigoureux...

«Je suis prisionière depuis l’âge de huit ans avec ma mère et ma sœur. Dans le temps où je commençais à goûter le délicieux plaisir d’être au sein de ma famille, je fus arrachée des bras paternels; je vis traîner mon malheureux père dans un afreux cachot.

«Les frères, la mère, le père de celle qui m’a donné le jour, deux oncles, je les ai vue tous expirer dans le plus honteux tourment.