Sem nos perdermos nos meandros de uma remota e complicada genealogia, e indicando, a quem se interessa por êsses estudos a notícia que acompanha a edição completa das obras da marquesa, mandada fazer por suas filhas, basta remontar à origem do título de Alorna, que data do meado do século XVIII, para vermos como êle foi nobremente conquistado pelo avô da nossa biografada.

D. Pedro de Almeida, que mais tarde foi marquês de Castelo Novo e herdeiro de seu pai, teve o título de conde de Assumar (3.ᵒ), a comenda de S. Cosme, de S. Damião e de Cristo e mais bens da corôa e de ordem[1]. Distinguiu-se desde os vinte e dois anos como bravo militar e como capitão inteligente e hábil.

Nas guerras da sucessão de Espanha D. Pedro militou sob as ordens do marquês das Minas, e comandou um corpo à frente do qual se bateu como um valente na batalha de Saragoça. Depois tão nobremente se portou na de Vila Viçosa, que na participação escrita da batalha, o marechal austríaco Staremberg cita-o como um dos cinco mestres de campo generais que mais denodo e mais bravura manifestaram no combate.

Feitas as tréguas e assentes os preliminares do futuro tratado, foi a D. Pedro que se confiou a custosa missão de reconduzir a Portugal, sob a má vontade disfarçada ou clara dos espanhóis, o corpo de tropas que havia tomado parte, debaixo do comando directo do conde da Atalaia, nas duas batalhas de Saragoça e de Vila Viçosa.

Esta retirada, que não vem ao caso narrar aqui, foi uma verdadeira odisseia, que deixou lembrado nos fastos da história portuguesa o nome fidalgo de D. Pedro de Almeida. Em tão delicada conjuntura o môço general revelou não sómente a coragem ingénita da sua raça mas o tino, a prudência, a razão clara que são raros em curtos anos, que infelizmente se iam tornando raríssimos na casta a que êle pertencia.

Tais provas da mocidade indicavam eloqùentemente o seu nome para futuros serviços prestados à pátria. Estava esta numa das horas mais sombrias da sua degeneração lenta e dolorosa, num dêstes lances de angústia inconsolável que de há três séculos para cá tanta vez a teem pôsto a pique de subverter-se em abismo, que se não sabe bem aonde vai, se ao mar sem fundo, se ao pântano lodoso.

Em 1747 foi D. Pedro de Almeida, avô de Leonor, nomeado governador da Índia, num dos momentos mais críticos daquela nossa tão ilustre quanto descurada possessão.

O estado da Índia chegara nesse lance ao mais miserável extremo de objecção e abandôno. Um deficit formidável; o govêrno desorganizado e sem prestígio; desfalque na receita dos tributos, grave diminuìção no comércio; paralisia em todos os órgãos, de corrupção em tôdas as células dêsse corpo em que, por um momento, tinha circulado o mais puro, o mais generoso sangue português. A província fôra invadida pelos maratas, a raça indomável e feroz, da qual os europeus tremiam, e que só a férrea dominação inglesa, mixto de astúcia e fôrça, de traição e de energia, conseguiu definitivamante amordaçar.

D. Pedro de Almeida não teve mêdo à implacável, à selvagem e impetuosa bravura dessa casta de bandidos, e afrontando com supremo valor o poder marata correu ao assalto da fortaleza de Alorna, já que encontrara perdida, ao chegar à Índia, a de Pondá, que pouco havia nos tinha pertencido. Não foi sem resistência que a praça de Alorna foi tomada aos maratas; os portugueses sofreram grandes perdas, e muitos oficiais sucumbiram naquele primeiro assalto das nossas armas, que o desleixo tinha enfraquecido e embotado.

Aproveitando, porêm, com a sua costumada habilidade, o prestígio readquirido pelo nome português, na vitória que fôra renhida e bravamente disputada pelos contrários, o marquês de Castelo Novo tomou logo, quási sem resistência, as fortalezas de Bicholim, Avara, Tyracol e Bary[2].