A notícia destas vitórias excitou verdadeiro entusiasmo em Portugal. Estava por um fio a conservação dessas tristes relíquias do poder português na Índia. Se o marquês de Castelo Novo não se apossasse com tão feliz e pronta bravura de umas poucas de praças cobiçadas pelo inimigo, sustendo assim a roda de uma fortuna que tão contrária nos ia sendo, quem sabe se o que possuimos ali seria ainda hoje nosso! A êste homem notável pela decisão do carácter, e pela arte com que executava os seus planos arrojados, se deve porventura a conservação do nosso poder no Oriente.

D. João V recompensou o general vitorioso com o título de marquês de Alorna, que lhe foi concedido por um decreto muito honroso em 9 de Novembro de 1750.

Leonor de Almeida comemorava com justo desvanecimento e invocava com o legítimo orgulho os heróis da sua raça. Vê-se que tinha razão. Não era sómente pelos serviços de ante-câmara, ou pelas manhas de destros cortesãos, que os seus maiores tinham ascendido à posição que nobremente gozavam.

No mesmo ano de 1750, data do nascimento da ilustre mulher, cuja vida tentamos escrever, partia tambêm para o palácio dos vice-reis da Índia outro ascendente seu, o marquês de Távora, pai de sua mãe. Estava êste predestinado, não à celebridade do heroismo, brilhante e prestigiosa, mas à outra, que fica mais profundamente gravada nas almas, que inspira a universal simpatia, que gera as piedosas lendas... à celebridade do martírio.

A marquesa de Távora D. Leonor, espôsa dêste novo vice-rei e avó da marquesa de Alorna, fôra uma das fulgurantes belezas da côrte de D. João V, tão rica em formosuras, ou provocadoras e sensuais, ou deliciosamente sugestivas de místicos arrebatamentos de alma. Era natural que assim fôsse; essas mulheres eram indispensável ornato de uma côrte, cuja pompa lembrava a de uma satrapia oriental, cujos requintes galantes, cujo fausto devoto, cujo fanatismo violento e pagão, constituiam o espanto da Europa culta do tempo. Ninguêm entendia como tão extraordinários contrastes se podiam fundir num todo único. Mafra e Odivelas; as devoções a Nossa Senhora, e os amores com a cigana Margarida do Monte; o ajoelhamento permanente diante da côrte de Roma a pedir-lhe bênçãos, indulgências, privilégios, patriarcado, e a crónica apimentada que baixinho se repetia em todo o reino, tudo isto era tão extravagante que se perdia a cabeça na contemplação de tais prodígios.

Mas a marquesa de Távora conservou-se impecável no meio deletério e estonteante em que a devoção era um sensualismo mais doce, mais requintado que os outros, e o amor, precisava da sombra sonora e fresca dos claustros, do cheiro do incenso, das flores expirantes entre velas do altar...

Por um dêstes segredos de toucador, de que as privilegiadas não confiam de ninguêm o segrêdo precioso, conservou-se ela formosa até aos cinqùenta e cinco anos. Sabe-se isso, porque no ano do terremoto, em que contava justamente essa idade, Teodoro de Almeida escreveu um mau poema, Lisboa destruída, no qual se refere à sua rara formosura. Nesse poema, que só viu a luz em 1803, porque o seu autor, é claro, não se atreveu a publicá-lo em vida de D. José I, há uma vinheta em que se vê a miniatura da marquesa D. Leonor, e diz a tradição que era um retrato fidelíssimo em que o artista se esmerou a rogos do poeta. Estão com ela a filha, condessa de Atouguia, a nora, marquesa de Távora e uma neta.

Camilo, que é a fonte, fonte inexgotável e genuína, de onde tirámos estas informações, acrescenta naquela sua frase cunhada em oiro de Lei:

«O congregado Teodoro de Almeida não extrema a marqueza velha das mais novas, quanto a beleza:

Neste ponto avistaram de repente