Junto a si três matronas mui formosas.

«O certo é que a marquesa aos cinqùenta e cinco anos era ainda uma esbelta senhora, com o aprumo juvenil e o garbo da mocidade sadia e alegre. Ás maneiras fidalgas e altivez de raça ajuntava a superioridade do espírito, essa segunda fidalguia que devia torná-la odiosa à estupidez de suas primas.»

Um dos mil poetas detestáveis daquele tempo, dedicou à marquesa de Távora uns versos em que lhe celebrava o denodo na ocasião de embarcar para a Índia, de onde voltou justamente um ano antes do terremoto, para morrer da trágica maneira que sabemos[3].

Em Goa os marqueses de Távora celebraram com festas pomposas, ao gôsto da época, mas espiritualizadas por um toque de talento, que então não era vulgar, a aclamação de D. José I—o rei sob cujo poder êles tinham de vir a sofrer tão afrontosa morte!

O espírito da gentil e orgulhosa vice-rainha desentranhou-se em graciosas invenções que revelavam a sua cultura superior. Nessas festas quis ela manifestar aos estrangeiros a magnificência, um tanto ôca, as mais das vezes, fictícia quási sempre, do génio português. No teatro, mandado construir pela marquesa na capital da Índia, e que foi edificado dentro do paço de Pangim, houve durante três dias representações de gala. No primeiro representou-se em francês a peça de Corneille Porus vaincu par Alexandre. Dos seis personagens da peça cinco eram franceses e um português; e haver naquela época uma senhora da côrte freirática de D. João V que soubesse apreciar com lúcido critério o valor literário do nome de Corneille, indica da sua parte uma ilustração desproporcionada com o seu triste meio. Só ela tinha, porêm, ali essa cultura fenomenalmente rara, pois que o auditório não entendia palavra... «mas foi a representação feita com tão vivas expressões, que ajudados de um sumário em português, que a senhora marquesa tinha mandado traduzir da ópera, todos saíram satisfeitos e agradados da novidade, nunca até ao presente vista em Goa»[4].

Quem talhou os costumes e dirigiu o guardaroupa foi a própria marquesa, que respeitando a côr local, porque a tragédia se passava na Índia, seguiu o rigor dos trajos opulentíssimos, assistindo ela própria a todos os preparativos e trabalhos. Depois da tragédia houve baile e ceia opípara oferecida às fidalgas de Goa. Na noite seguinte representou-se uma ópera portuguesa desempenhada por curiosos, em que entraram os Correias de Sá, irmãos do visconde de Asseca. A esta festa seguiram-se outras em que a vice-rainha continuou a exibir as suas faculdades inventivas e a alta compreensão que possuia da grande vida e do luxo inteligente.

Nos intervalos dessas festas, ou no remate delas, mandava distribuir fartas esmolas pelas famílias fidalgas decaídas na miséria, «relíquias dos antigos potentados da Ásia arruinados pela dissipação, e durante os quatro anos do seu vice-reinado subsidiava com mesadas os que não podiam vir ao paço receber as esmolas. Êsses mendigos envergonhados eram os legítimos representantes da Índia portuguesa»[5].

Tinha um defeito a marquesa de Távora: era soberba da sua estirpe em grau inadmissível. Ás suas ironias desdenhosas de fidalga se atribuiu grande parte do ódio que o marquês de Pombal mais tarde manifestou cruamente aos seus. Mas êsse pecaminoso orgulho, de que se contam mil anedotas típicas, transformou-se na fôrça estoica com que suportou o martírio; depurou-se na energia inquebrantável com que recebeu a morte e a tortura moral que a precedeu, sem dobrar nem envilecer a sua bela cabeça aristocrática.


Neste nosso tempo de alta civilização intelectual em que as noções mais complicadas da sciência humana penetram, por meio da extrema vulgarização das ideas, até nos espíritos menos preparados por uma forte educação técnica para as receberem; neste nosso tempo—quem pode ignorar as influências poderosas que a hereditariedade exerce na formação de um organismo?