Os versos de Leonor feitos em Chelas e publicados no primeiro volume das suas obras, são ainda menos reveladores do que as suas cartas.

Pelo modo de versejar, Leonor pertence inteiramente nesta primeira fase da sua vida à escola pseudo-clássica do século XVIII, no que ela tem de mais falso e de pior.

Uma interminologia enfadonha, uma quantidade incontável de nomes e de alusões mitológicas—não da bela mitologia grega tão naturalista, tão profunda nos seus símbolos, tão ladina nas suas encarnações humanas,—mas de uma falsa mitologia, dentro da qual se não lobrigava uma idea única, e que abonando em favor da erudição de Leonor, diz muito pouco do seu coração e da sua sensibilidade.

O que, porêm, temos das suas belas cartas, de sobejo nos deixa perceber quantos sonhos se abrigariam naquela ardente imaginação de rapariga.

Tancredo—o infeliz filho do duque de Aveiro, a que estava reservado um destino tão negro—era o príncipe azul de Maria de Almeida. Leonor havia de fantasiar mil vezes o seu. Não sabia donde êle tinha de surgir um dia, mas estava certa de que viria na hora própria e de que não seria parecido com nenhum daqueles que os interesses da família por mais de uma vez tinham tentado impor-lhe.

Para êle cuidava com esmero da sua formosura singular em que tantas vezes ingénuamente se revê, com adorável garridice; para êle adorna o seu espírito de tôdas as graças, de tôdas as riquezas, de todos os encantos... Será bravo como um herói; há nela a paixão corneliana de tôdas as grandezas épicas; mas será tambêm cultivado como um sábio, eloqùente como um poeta, e profundo como um filósofo.

Bayard e Voltaire encarnados num só homem. Conversará com discreta graça dos mil assuntos que a preocupam; terá as aspirações que ilustram o seu tempo, pressentirá tôdas as grandes innovações de que ela antevê com secreto enlêvo a próxima alvorada.

Nos cláustros húmidos e melancólicos do seu mosteiro escondido, Leonor evoca essa figura maravilhosa, que não encontrará de certo jámais, e nessa evocação mágica se consola de tôdas as lutuosas tristezas da realidade.

Os que nunca viveram pela imaginação não podem conceber o que seja êste dom milagroso com que ela enriquece os seus eleitos. Não sabem que na pobreza, na solidão, na clausura, é possível ser-se feliz quando se possue a chave de oiro dêsse país das quimeras a que sobem os que teem asas!

E dêsse vago sonambulismo de poetisa, de erudita e de fantasista adorável despertou um dia de súbito Leonor de Almeida ao sentir dobrar fúnebremente todos os sinos de Lisboa, anunciando a morte de um rei, a morte do rei que esmagara todos os seus.