«O carácter da família dos Silveiras é coisa muito célebre. Parecem-me fidalgos de província. O primo Bernardo é um daqueles que se pintam, e eu o pintara se v. ex.ᵃ me desse licença para dar quatro gargalhadas à custa do meu futuro cunhado, sem que isso ofendesse as minhas obrigações, mas falar com meu pai é pensar alto, e vou dizendo:
«É um mocetão pela figura do mano, mas de cara muito peor, contudo, persuadido da sua gentileza, crê piamente que andam nos seus ferros tôdas as belezas do mundo e toma um ar de satisfação muito célebre que faz rir.
«Com o desembaraço de colegial julga-se sábio, e zomba das belas letras de que não entende nada, celebrando sempre a profundidade dos autores de direito canónico, e os toiros, qualquer destas coisas muito interessante em uma companhia de senhoras.
«Não crê na aplicação das mulheres, e trata-nos sempre com ar de superioridade e de ignorantes, fatigando-se com explicações e pequenas histórias bastantemente impertinentes.
«Como a tia Maria tem assoprado muito a vaidade dêste e abusado da paciência, moleza e bondade do outro, observa-se uma certa altivez que vistos ambos, parece o primo Bernardo um sogro, que me faz obséquios, porque intenta casar seu filho comigo, e o outro um enteado, sem confiança com o padrasto. Eu e a mana, defronte dêstes dois indivíduos, tambêm nos podiam pintar, e se acaso se vê na minha cara a variedade de coisas que me passam pela cabeça, tambêm haveria de que rir. A tia Maria, em ar de Sybilla Comea, trata-me com o maior carinho, e eu correspondo como devo, mas estou muito costumada a reflectir para não distinguir o que é, do que parece. Do primo Brás (o futuro noivo) dará minha mãe notícias, mas eu não posso fiar de ninguêm esta anedota.
«Para agradar à sua noiva, que é aplicada, começa agora os seus estudos, por um jardim botânico e umas estufas.»
Quando o pai teima em apresentar a Leonor de Almeida as vantagens sociais do casamento com D. Brás da Silveira, ela responde-lhe com melancolia impressionadora:
«Estou nas fatais circunstâncias de ter que decidir-me, com um susto inexplicável e com o mais vivo desejo de acertar e de ser útil aos interesses de v. ex.ᵃˢ. Se me pertence a glória de ir com as minhas ansiosas diligências libertá-los, pereçam todos os sistemas em que eu tinha fundado a minha felicidade própria, e será uma sorte assás digna de satisfazer-me aquela em que eu puder servir o meu querido pai, e procurar o inteiro restabelecimento de minha mãe. Nada mais me pode obrigar ao sacrifício da minha liberdade, e a tomar o trabalhoso encargo de mãe de família. O coração e o pensamento todo ocupado das minhas perdas e das minhas aquisições apresenta-me como um desastre o sair dos braços da minha mãe, da casa de v. ex.ᵃ, para outra desconhecida, onde me não leva nenhum princípio dos que a natureza nestes laços poderia apresentar. O rapaz é um homem sem estudos; que julgará dos meus? Tem uma irmã aliada com o algoz que abomino. Como poderei eu ver de perto similhante gente? Mas representa meus avós (é filho de um tio direito da marquesa de Alorna); trabalha na liberdade de minha mãe, anuncia vagamente a de v. ex.ᵃ! Se me conseguir... oh! meu querido pai, tomara antes de separar-me desta casa, abraçar nela a v. ex.ᵃ, tomara que v. ex.ᵃ viesse aqui ensinar-me qual é o meu dever. V. ex.ᵃˢ ambos é que melhor do que eu poderiam remediar tantas perplexidades. Eu não sei o que digo, não sei o que faço, vivo em uma escuridade impenetrável... Deus me socorra, e me faça atinar com o que for melhor...»
Felizmente para a nossa biografada, o pai não teimou em dar-lhe para marido um homem que Leonor não respeitava nem amava, e a sonâmbula gentil do cláustro de Chelas continuou a ler, a sonhar, a instruir-se, a reflectir na plena liberdade do seu indisciplinado e ardente espírito.
Pena é que não tenhamos outras revelações do que ela então pensava e sentia, alêm das que encontramos nas suas cartas ao pai. Por muita confiança que aos vinte e vinte e quatro anos se tenha nos pais, nunca é a êles que uma alma juvenil se confessa inteiramente.