«Estávamos na grade com as primas S. Miguéis e outras pessoas de confiança, de sorte que uma delas estava cantando algumas cançonetas, cuja letra era de Metastásio, e caindo naturalmente a conversação sôbre a galanteria dêste poeta, disse o Principal Boto em tom de doutor, que o Metastásio não fizera mais que copiar Tibullo e Catullo, os quais não andavam pelas mãos de todos, e por essa razão nos admirávamos tanto das belezas de Metastásio, porêm êle que as achara já na língua latina traduzidas do grego, não fizera mais do que roubar-lhes o pensamento para as pôr nas suas obras. Eis aqui como por cá se fala, meu pai, e se v. ex.ᵃ viesse havia de ouvir muitas destas. A uns que o estabelecimento das Vestais fôra formado segundo a idea das Virgens do Evangelho, a outros que as almas felizes eram conduzidas por Júpiter aos Eliseus—mil frioleiras daqueles mesmos que teem a confiança de criticarem as mulheres que podiam mandá-los jogar o pião com os rapazes de escola.»[65]
Outras vezes fala dos desdens que pela mulher aplicada—é esta a frase do tempo—teem e manifestam os rapazes fidalgos, os que levam a vida em arruaças, façanhas de picaria, guitarradas nocturnas, orgias de baixo nível. Beckfor mais de uma vez se refere ao gôsto de freqùências baixas que há nos moços da fidalguia portuguesa, os quais se não pejam de ter por amigos os picadores, os boleeiros, os lacaios, etc., com quem dansam o fado, e se associam para as grossas pancadarias. Tudo que se lê com respeito à casta aristocrática em Portugal, revela claramente como ela voluntáriamente abdicou, abastardando-se, anulando-se, embrutecendo nas convivências de parasitas, bobos e ignorantes de má laia... Tolentino é recebido nas grandes casas pelos lados mais degradantes do seu carácter, pela veia de pedinte e de adulador, que tão negramente macula o seu estro admirávelmente cómico. A aristocracia, à qual sómente restavam os privilégios adquiridos sem nenhuma das virtudes ou das heróicas façanhas que os haviam justificado, havia fatalmente de desaparecer da scena social, logo que, abolidos êsses privilégios e disperso aos quatro ventos o património que os representava, ela aparecesse tal qual era, tal qual uma educação corruptora e péssima a tinha feito lentamente, salvas raras excepções que destacam com pitoresco relêvo, e que por isso mesmo não constituem regra.
Leonor de Almeida percebia tudo isto. A sua inteligência mais vigorosa do que feminilmente delicada, não lhe deixava a respeito da sua classe em Portugal qualquer ilusão consoladora.
É por isso que tão ardentemente busca distanciar-se do meio em que nasceu e em que pensa terá de viver, é por isso que estuda infatigávelmente, protestando por êste modo contra a ignorância que a invade como uma maré lodosa e turva.
Duas vezes, durante o cativeiro de Leonor de Almeida, tiveram seus pais o projecto de a casar, como naquele tempo se casava por conveniência de família, por alto interêsse de raça.
Um dos noivos que para ela desejaram foi D. João de Bragança, o futuro duque de Lafões, de quem falaremos mais tarde, já velho áquele tempo, e que então, receoso da tirania política de Pombal, andava casquilhando e brilhando pelas côrtes de Viena e de Versailles.
A êste projecto um tanto fantasioso, e que parece não ter tido sólidos alicerces, pôs ponto o bom senso incontestável de Leonor e do marquês.
O outro noivo que quiseram dar-lhe, e com êste se adiantaram bastante as negociações, que felizmente Leonor de Almeida conseguiu malograr a final, era D. Brás da Silveira, filho primogénito de D. Nuno de Távora, o qual, por ser irmão segundo do marquês de Távora, estava na prisão da Junqueira juntamente com o marquês de Alorna. Uma filha de D. Nuno de Távora casara com o conde da Redinha, e êste enlace de uma sua parenta próxima com o filho do perseguidor da sua família inteira, desgostava profundamente D. Leonor de Almeida. A sua principal objecção ao casamento preconizado por seus pais, era ficar em virtude dêle cunhada do conde da Redinha. Isto é que o ânimo cavalheiroso e tão ultrajado de Leonor não podia aceitar livremente.
A propósito dêstes seus parentes Silveiras fêz Leonor nas cartas ao pai um espirituoso e expressivo retrato que não deve ficar eternamente inédito, porque representa mais que uma individualidade, a final de contas obscura, representa a figura típica do fidalgo português, enfatuado, ignorante e ridículo. O retratado é D. Bernardo da Silveira, irmão daquele que os marqueses de Alorna desejavam para noivo de sua filha.
Ouçamos, pois, esta num dos seus raros momentos de verve endiabrada e natural.