Referimo-nos já por mais de uma vez a D. Martinho de Mascarenhas, filho do duque de Aveiro, e encarcerado na Junqueira com o marquês de Alorna.

O pai de Leonor planeara que ao sair da sua prisão lhe daria a mão de sua filha mais nova D. Maria de Almeida; e êste projecto, que não foi levado a efeito, pois que nunca D. Maria I restituiu os seus títulos e honras ao filho do homem que tinha tentado assassinar seu pai, enche, no convento de Chelas, de romanesca alegria as três enclausuradas senhoras.

As duas poetisas—Maria tambêm escrevia versos e tem uma graça indescritível de expressão nas suas cartas—muito letradas ambas como se sabe, baptisaram de Tancredo o marquesito de Gouveia[60], acrescentando que só no herói do Tasso haviam encontrado as qualidades cavalleirescas que distinguiam o carácter do jovem fidalgo português.

Leonor escrevia-lhe de Chelas: «Meu estimado mano.—Dou a v. ex.ᵃ os parabens do dia de hoje e lhe seguro que a sua vida me interessa imediatamente à de meus pais, pelo dobrado motivo do seu merecimento e por depender dela o contentamento da pessoa mais amável que eu conheço nêste mundo. V. ex.ᵃ pode julgar-se o homem mais feliz do mundo todo; os sentimentos que premeiam os seus ferros e os cuidados que v. ex.ᵃ tem no meu triste pai[61], devem suavizar tôdas as amarguras. Neste vale de lágrimas (como diz a Salve-Raínha), não era possível uma aliança tão linda sem se merecer por desgostos tais como o nosso. Que dias tão alegres nos tem preparado o infortúnio! Alegre-se v. ex.ᵃ e consolêmo-nos mútuamente até que Deus quebre obstáculos tão tiranos.» E outra vez no meio de uma carta dirigida ao pai: «E v. ex.ᵃ, mano Tancredo, não me esquece um instante. V. ex.ᵃ, que é o estimável companheiro de meu pai, tem parte com êle em todos os nossos pensamentos.»

Quando a doença de D. José bastante pronunciada para tornar provável a sua morte próxima dá alguma remota esperança de liberdade à infeliz família de Alorna, Leonor com a sua habitual expansão, escreve ao pai pintando-lhe os quadros de felicidade familiar, que a fantasia lhe representa. «Vamos, como diz o mano Tancredo para o Vimeiro, para Almeirim[62]; a nossa sociedade, até Deus olhará para ela com gôsto. Nunca a virtude se há de desviar dela e a liberdade fará tôda a sua delícia.»[63] «As ideas em tumulto não sofrem nenhuma ordem, quando escrevo—acrescenta Leonor na desordenada alegria com que a desnorteia a esperança, ou o prenúncio de uma próxima libertação.—O coração cheio de sentimento e num tremor de impaciência desacomoda-se para escrever. Nada me contentava agora senão voar e entrar como um pintasilgo por essas janelas para conversar com v. ex.ᵃ. Que gôsto teria em vos ver? Já lá estou... Vejo a v. ex.ᵃ alegre, e num cárcere, quási sem luz, descorado, magro e com tôda a impressão dos seus trabalhos... Será assim, meu querido pai? Melhor fôra que v. ex.ᵃ viesse aqui aonde eu me acho. Só, em uma pequena casa, rodeada de livros, escrevendo com as lágrimas nos olhos o que me não cabe no coração. Achar-me ia uma célebre figura, com um roupão côr de fogo, forrado de peles escuras, o capuz na cabeça, sem pós, despenteada, com tôda a desordem de quem sente infinitas saudades. Que me diz v. ex.ᵃ ao delírio desta carta?... Se v. ex.ᵃ visse o apetite, o alvorôço e as saudades com que eu estou, tudo acharia pouco. Devéras, meu querido pai, o coração avistando a meta desejada corre com uma velocidade atrás dela, que nem o tempo incansável pode alcançá-lo... Diga v. ex.ᵃ ao mano Tancredo que a condessa está convidada para madrinha da mana, para que tudo seja completo.»

A idea de viver com os pais no campo (em Almeirim) lisonjeia-lhe estranhamente a imaginação educada por Jean Jacques Rousseau, que então andava revelando os encantos da simplicidade, os encantos da natureza, às frívolas raínhas dos salões de Paris.

E tôda imbuída das máximas da filosofia reinante, de que eram propagandistas os seus autores queridos, escreve ao pai, o velho fidalgo que achava Voltaire digno de queima:

«Eu cuidei que ainda tinham algum poder sôbre v. ex.ᵃ os atractivos de uma côrte brilhante, e que a glória, que de um certo modo se entende ligada à ostentação, podia ser alguma tentação para v. ex.ᵃ que perdeu o tempo melhor da sua vida no seio dos desastres (sic). Vejo que não falta nada a v. ex.ᵃ, meu querido pai, e que avalia a felicidade segundo a filosofia, que dá mais valor a ser homem que a ser fidalgo, e isto que concorda inteiramente com os meus princípios dá-me um gôsto inexplicável. Não aspira v. ex.ᵃ senão a uma vida oculta e tranqùila, aspira a provar todo o preço da sua existência, aspira a tôdas as delícias do coração sensível, e eu não aspiro senão a procurar-lh’as e a gostar com v. ex.ᵃ os prazeres que se ignoram no tumulto da côrte. Diz v. ex.ᵃ que «se esqueceu que poderia ser grande doutor se aproveitasse todo êsse tempo», e eu digo que tudo quanto v. ex.ᵃ podesse adquirir não produzia mais do que v. ex.ᵃ possue na disposição em que se acha.

«E agora vou falar com o mano Tancredo. Pode v. ex.ᵃ segurar-lhe que a sua linda noiva gostou sumamente das novas que êle dá do que sabe. Estimou muito que soubesse as duas línguas italiana e francesa. Riu com a medicina, desejando mais que êle antes fôsse físico do que médico.»

O perfume avelhantado de tôdas as cartas de Leonor é que é o seu encanto supremo para o crítico. Como elas pertencem pelo estilo ao tempo de que são datadas!... E como a par disso elas teem o cunho individual da mulher que as escrevia, tão diversa das mulheres portuguesas da sua classe, tão namorada de erudição a ponto de parecer muitas vezes um poucochinho pedante. Mas essa leve tintura de pedantismo deve ser-lhe perdoada se a considerarmos a natural reacção de um espírito inteligente e culto contra a boçalidade que distinguia a sua classe e a sociedade de que ela fazia parte muito a seu pezar. Os que pretendem conhecer a fundo a ignorância do tempo em que destacaram excepções raríssimas, leiam as descrições da sociedade portuguesa no tempo de D. Maria I, feitas por estranhos sempre mais capazes de verem bem aquilo que vêem pela primeira vez.[64] Ela mesmo dá mais de uma vez ao pai nas suas cartas exemplos dessa boçalidade que a desespera. Eis um dêles: