Eis como ela responde ao que o pai lhe diz a respeito de quanto é necessário a uma mulher evitar assuntos amorosos que se prestem a interpretações malignas.

—«O que eu compreendo sempre do amor, o que me obrigou a fazer versos sôbre alguns assuntos ternos, vem a ser que o amor é o vínculo suavíssimo e a primeira virtude da natureza humana; sempre o considerei só digno das grandes almas, e tal qual o pinta ou o exige Platão. Só êste apareceu aos meus olhos, e se há alguma coisa criminosa ou perigosa de que se não deva falar, não é isso que eu entendo quando falo de Laura e Petrarca. Estes dois amantes do século XIII, gabados pela inocência e constância do seu amor e dos seus costumes, pareceram-me dignos de os louvar nos meus versos, e como um autor francês supôs Laura poetisa, e não aparecem os versos que ela fêz, as duas odes são de Laura.

«Uma supondo Petrarca ausente na sua embaixada da Espanha, outra, simplesmente explicando os seus sentimentos em resposta a uma canção dêle.»

Ainda a respeito do amor, leiamos êste trecho de outra carta tão singularmente característico do tempo, e não precisando de data para que um crítico o reconheça imediatamente como pertencendo ao nosso alambicado século XVIII.

—«Vejo o que v. ex.ᵃ me diz sôbre o amor. Êste sentimento ou paixão que domina o mundo, segundo tenho observado, creio que assim como o sono foge das pálpebras molhadas de lágrimas, assim êle se desvia dos corações ocupados dos grandes trabalhos. Eu tenho lido e meditado muito para ignorar absolutamente o que seja a natureza, e v. ex.ᵃ verá nos meus serões, o meu coração sem algum véu. Mas verá igualmente a minha antipatia por tudo isso. Eu tenho um gôsto nímiamente metafísico[58], quási tudo me desgosta e me fatiga fora dos discursos e dos exercícios da alma. Simplesmente sou apaixonada de platonismo, e creio que os corações cândidos não poderiam nunca admitir outras ideas a respeito do amor. Mas tudo isto se passa em mim em razão de discurso, e jámais tomarei interêsse particular nestas matérias, que não seja dirigido pela razão de uns pais que sabem únicamente o que me convêm. Eu tenho bastante reserva nas minhas ideas; ninguêm sabe de que partido eu sou em certas coisas em que a decisão é perigosa, pode v. ex.ᵃ descansar nesta matéria.»

De resto não havia nenhuma afectação de falsa inocência de modéstia hipócrita nas relações estabelecidas por escrito entre a filha e o pai. Leonor não é uma inocente. Conhece pela sua leitura a vida, nem parece que na educação daquele tempo houvesse o cuidado exagerado, e às vezes contraproducente, que hoje há em livrar as raparigas de todo o conhecimento rial das coisas.

A prova do que dizemos é que Leonor, no intento de distrair o pai, conta-lhe as anedotas salgadas do tempo, que de fora penetram até ela através das grades de Chelas.

—«Uma coisa que tem feito grande bulha e em que nunca falei a v. ex.ᵃ é na célebre actriz que exauriu os bolsos de todos os casquilhos e veio pôr à viola a nossa terra, porque tendo (segundo entendo) pouquíssimo merecimento, sabe encantar a todos e tem dado assunto a tôdas as palestras, muito verso, muita apologia, muita satira, porêm tudo junto é papel para aquentar camisas, e fica com muito honrada serventia. A tal madama chama-se Zamperini, não é demasiado bonita, canta muito bem, e dizem que declama excelentemente; mas para crer isto precisa-se fé, pois tudo quanto dizem é muito afastado das regras dessa arte, que as necessita como qualquer outra. Dizem que é muito afectada, nímiamente desembaraçada, e outras circunstâncias que impõem para os ignorantes da nossa terra. O nosso Inácio Quintela tem desembolsado os seus cabedais, o Anselmo da Cruz, o condinho de Oeiras ao princípio, e um círculo grande de adoradores que aparecem pintados numa satira que lhe fizeram.[59] É de um carácter muito singular. Com tôdas quantas bugiarias pôde aprender no teatro engana a todos... Eu já estou enfastiadíssima de Zamperini, mas não quis deixar de lhe dar estas notícias que teem interessado tôda a nossa terra.»

Êste trecho e outros similhantes sôbre o valido da imperatriz da Rússia, sôbre as pieguices freiráticas que ela se não cansa de repelir, etc., etc., dá a nota da intimidade que havia entre Leonor e o pai. Êste acompanha-a sempre com o mais prudente conselho, com a admiração mais estimulante, com a bondade mais perfeita. O amor do pai, pode chamar-se a única grande alegria moral que Leonor recebe durante os anos do cativeiro.