Sôbre questões de técnica poética discutem, não raras vezes, os dois eruditos correspondentes. Que lição para os que perdem a coragem e o ânimo à menor contrariedade da vida, não dá êste homem no vigor da virilidade, enclausurado, perseguido, cheio de privações crudelíssimas, separado de todos os seus, e esta mulher em viço de anos, bela, nobilíssima, prometida a uma existência de alegria e luxo, encerrada desde a infância num triste convento, e tendo, apesar disso, suficiente liberdade de espírito, suficiente heroicidade de ânimo para se entreterem em discussões literárias, em controvérsias intelectuais, em comentários eruditos às respectivas leituras, em matérias emfim que os afastassem a ambos da contemplação do seu atroz destino sem esperança.

Leonor é pela poesia sôlta sem auxílio da rima, o marquês contradiz neste ponto eruditamente o gôsto de sua filha.

—«É certo que vendo-te há tempos infinitos não fazer outra coisa senão odes alatinadas, gabando cada vez mais esta casta de obra até te mostrares de todo encantada a seu respeito, tive receio de que aí ficasses para sempre, e que nunca mais te podessem reduzir a intentar outra espécie de composições. Dêste modo não tem dúvida nenhuma que perderias infinito daquela galanteria e grande arte de agradar que todos te admiram, porque a maior parte da gente, entrando nela innumeráveis poetas, não estão a favor da soltura do verso, nem é natural que admitam as tais odes senão se forem poucas, e atendendo a muitas outras coisas mais agradáveis da mesma autora. As ditas odes, vista a sua natureza, tambêm me fazem temer do teu génio, que te não separasses nunca delas, e com isso tinha tambêm mêdo que certas imperfeições nas tuas produções, em lugar da emenda fôssem sempre a crescer!... Alêm disto ficarias dêsse modo sem nunca chegares a ter de todo a rima às tuas ordens, como acham todos preciso para um poeta dizer em verso tudo que quiser, e sem cuja posse em tal grau não pode ser admitido no dia de hoje nos primeiros assentos do Parnaso. O verso sôlto com as circunstâncias que tu dizes é admirável, confesso que dêsse modo não lhe faz a rima nenhuma falta, mas da forma que tu o pintas aí é que está a maior dificuldade, e para a sua fabrica haverá muitas mais prisões e quebradoiro de cabeça. Que a rima dá fôrça a infinitas coisas que sem ela seriam semsabores, não tem dúvida nenhuma. Será preocupação, mas da forma que todos estão encasquetados a favor dessa dificuldade aparente, necessita o verso sôlto para agradar um tal carácter que serão sem comparação em maior número os versos rimados que possam parecer excelentes. A dita dificuldade sempre se exigiu na poesia, e assim parece preciso para suprir a sublimidade que nem sempre se pode encontrar, principalmente nas obras mais compridas. Entre os antigos a diabrura dos pés ainda era de mais trabalho...

«Veremos as odes de Laura e Petrarca[56]. Entendo que serão excelentes e sôbre o amor platónico não haveria pouco que dizer. Creio que o teu é dessa casta (o que ela celebrava numa ode em que se fingia Petrarca ou Laura), mas como a maior parte do mundo está a êste respeito de um materialismo terrível, por essa razão estou pelo que já disse, e acho preciso evitar-se tudo a que pela malignidade das gentes se pode dar uma má interpretação.»

Leonor é que se não deixa fácilmente convencer. Apesar do bom senso e do gôsto apurado do pai, ela cheia da sua razão, defende-se enérgicamente.

«Diz v. ex.ᵃ que eu estou em termos de tresler em matéria de poesia, quando eu entendo que nunca estive em melhores termos do que estou presentemente.

«Será talvez demasiada presunção, porêm, se v. ex.ᵃ me conhecer bem, verá que, o que eu disse não é o efeito de uma sujeição servil aos antigos dos quais me desgostam infinitas coisas. É certo que as odes de Horácio me agradam infinitamente, e que sempre me agradaram coisas similhantes na nossa língua. Bem vejo que a rima é um adorno muito bonito, porêm desnecessário em muitos casos quando a medida é certa e o verso por si harmonioso. As odes pedem um certo vôo que não sofre a mínima sujeição, e a das consoantes é lei forte que

Maudit soit le premier dont la verve insensée

Dans ces bornes étroits renferma la pensée.

«Não se encontrará fácilmente uma ode rimada que seja boa, e eu aconselhava a todos que as fizessem assim, que lhe chamassem cantigas, versos ou coisas, como chama um galante poeta da nossa terra a tôdas as suas composições. V. ex.ᵃ não é dêste parecer, e é esta a minha única desconsolação, porque a não ter esta razão de descontentar-me, tôdas as mais estão da minha parte. V. ex.ᵃ bem sabe que cada palavra ou contêm uma idea simples ou complexa, ou se desvia ou se dirige ao todo do discurso. Não é possível que em tôdas as palavras das rimas se ache uma concordância admirável com o desenho do poeta, e em tendo de quebrar o discurso no fim do verso, já se rebate o vôo e sublimidade que exige esta sorte de poema, nascem ideas novas, constrange-se a mente, não corre como de fonte o tal licor de Castalia, e só numa língua em que as palavras tenham muitas rimas consentirei que as odes sejam rimadas. O poeta distingue tanto a poesia da rima que sendo o verso cheio, harmonioso, livre e de palavras puras não prova menos recreio nos que chamamos soltos que nos rimados. O ponto está em que as ideas sejam claras, poéticas e bem formadas; o desenho regular e sublime segundo o género em que escreve. Estou vendo que v. ex.ᵃ não há de gostar nada do meu poema da Morte, porque é feito em verso sôlto. Nem o exemplo de Camões, de João Franco(!) e de outros me poderão resolver a rimar a tal obra, porque a autoridade que um e outro se arrogaram de falar latim à portuguesa não é para se imitar. A esta hora está v. ex.ᵃ fazendo muito escárneo da minha suficiência, porêm eu tendo, graças a Deus, uma vontade bastantemente dócil, o meu entendimento tem muito pouca sujeição, e diz Almeno[57] que eu sempre digo a torto e a direito quanto quero.»